Política Regional

O que esperar da relação entre Bolsonaro e Casagrande em 2020

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Um governo federal de direita. Um governo estadual de centro-esquerda. Essa foi a configuração política que se instalou no Espírito Santo nas últimas eleições. O conservador Bolsonaro (PSL) abocanhou 63,06% dos votos capixabas no segundo turno. O socialista Casagrande (PSB) saiu vitorioso com o aval de 55,49% dos eleitores. Quase um ano depois de os dois eleitos assumirem seus cargos, ainda não há clareza de como está a relação entre o Planalto e o Palácio Anchieta.

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No final de novembro, Renato Casagrande deu uma alfinetada em Bolsonaro e afirmou que o Estado está com dificuldades de atrair investidores por conta da instabilidade no cenário brasileiro.

“Ainda estamos instáveis institucionalmente. O Brasil não conseguiu conquistar o investidor pelo debate ambiental, com essas declarações de desrespeito aos direitos humanos. Investidor quer estabilidade, não olha só economia e financeiro”, disse Casagrande, afirmando ainda que “há muito despreparo” por parte do Governo Federal.

Diante das farpas, o que esperar do Executivo Federal para o próximo ano? Obras importantes para os capixabas, como a duplicação da BR 262, realmente sairão do papel, mesmo que sob a batuta de uma privatização? Serão viabilizadas quaisquer outras das 224 obras federais que, segundo o Tribunal de Contas da União (TCU), estão paralisadas ou inacabadas, entre elas creches, rodovias, sistemas de esgoto e unidades de saúde, que se arrastam desde 2001?

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Para o deputado federal Josias da Vitória (Cidadania), a bancada federal, os governos do Estado e Federal têm maturidade para debater o que é de interesse do Espírito Santo, e buscar os recursos necessários para o Estado é uma das prioridades da bancada capixaba no Congresso.

“Um exemplo claro disso foi a definição das emendas impositivas que a bancada de cada Estado tem para indicar no orçamento do Governo Federal para o próximo ano, no valor de R$ 247,6 milhões. Ao contrário da bancada de outros Estados, os parlamentares capixabas definiram em conjunto para onde serão destinados estes investimentos. Serão R$ 60 milhões para a obra da rodovia do Contorno do Mestre Álvaro, R$ 20 milhões para as obras da BR 447 (que liga a BR 101 ao Porto de Capuaba, em Vila Velha), R$ 57,6 milhões para a saúde, R$ 50 milhões para a educação, R$ 40 milhões para a agricultura e R$ 20 milhões para a segurança pública. Os recursos para as obras de infraestrutura, que foram iniciadas pelo Governo Federal neste ano, garantem o andamento delas no próximo ano”, explica Josias da Vitória.

O trabalho em equipe, segundo o deputado, faz a diferença na busca de investimentos. “Todos estes investimentos para o orçamento de 2020 foram definidos em conjunto pela bancada capixaba, que é a mais unida do país, e que dialoga permanentemente com o Governo do Estado e com o Governo Federal, repito, focado no que é prioridade para o Espírito Santo”.

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O senador Marcos do Val (Podemos) avalia que as pautas convergentes fazem a diferença e que o governador do ES trabalha em cima das demandas da sociedade. “Renato Casagrande tem uma pauta de segurança pública, que é a principal entre os que se colocam à direita. Renato não tem uma linha única, ele vai em cima do que a sociedade deseja. Em 2014, os capixabas viram o trabalho dele com o Estado Presente e, na última eleição, ele colocou a bandeia da segurança pública. Eu também estava no PPS, um partido de esquerda, e fui eleito. Minha pauta também é a segurança pública. Então, temos que separar um pouco, não ficar no direita e esquerda e ver o que é melhor para o país. A aeronave está sendo pilotada pelo Bolsonaro, e todos estamos nela, não queremos que ela caia, então temos de ajudar, independente de quem está no comando”, avalia.

A reportagem fez contato com a assessoria de Renato Casagrande, mas não foi possível fazer a entrevista por falta de horário na agenda do governador.

Vitórias não surpreendem

Para o cientista político João Gualberto, o Estado não será prejudicado por estar sob dois governos com ideologias diferentes. “Na verdade, até o momento nenhum Estado foi atendido. As políticas de educação e emprego não aconteceram. Bolsonaro administra uma massa falida. O Estado que ele recebeu não tem dinheiro e o papel dele é reduzir as contas públicas e o déficit fiscal. Na prática, não há condições de fazer nada por enquanto, portanto, ele não vai prejudicar ou ajudar qualquer Estado nesses primeiros dois anos de governo”, salienta.

A vitória de Bolsonaro e Casagrande em uma mesma eleição não surpreende, explica Gualberto. O único governador petista que assumiu o Palácio Anchieta foi Vitor Buaiz, em 1995, que teve uma boa gestão à frente da Prefeitura de Vitória, num mandato iniciado em 1989, mas uma passagem catastrófica à frente do Executivo capixaba. “Por essas experiências, o Espírito Santo tem essa tradição de não votar no nome da legenda petista”, explica.

Depois de Buaiz, o PT encolheu no Espírito Santo, vieram Lula e Dilma, que sempre foram menos votados no Espírito Santo do que nos demais Estados brasileiros.

“O governo Dilma foi perverso no Espírito Santo. Perdemos o Fundap, a BR 262 nunca foi em frente. Viramos o patinho feio da federação. Então, a votação recorde de Bolsonaro por aqui pode ser um pouco explicada pela tradição de descaso do PT com os capixabas e a natural construção do descrédito que os petistas tiveram aqui. E como o Bolsonaro foi bastante vinculado ao antipetismo, ele cresceu muito no Espírito Santo”, comenta o cientista político.

Quanto ao governo Casagrande, Gualberto enfatiza. “Não acho que o Renato disputou com uma imagem de centro-esquerda. Creio que ele está sim querendo construir um governo de centro-esquerda, tem secretários que abraçam esse viés”, avalia.

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