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Em 'Vai Começar a Sessão', Sérgio Augusto apresenta todo os encantos do cinema

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Ao menos uma vez por ano, Sérgio Augusto, um dos principais jornalistas culturais do País, assiste ao musical Cantando na Chuva, que Gene Kelly e Stanley Donen dirigiram em 1952. No mínimo, uma sessão particular. “É meu filme favorito. Um primor de realização, um roteiro fabuloso. Ao final, sempre me sinto mais feliz”, conta ele, colunista do Caderno 2 e do Aliás. E é justamente da colaboração a esses dois cadernos que nasceu Vai Começar a Sessão (Companhia das Letras), coletânea de escritos sobre o cinema, desde os clássicos até blockbusters.

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São 89 artigos, dos quais 83 saíram no jornal O Estado de S. Paulo. Dada a profusão de textos que coleciona na carreira (“Afinal, já são 55 anos de jornalismo”, avisa), Sérgio preferiu fazer um recorte, selecionando trabalhos publicados apenas nos anos 2000. Assim, o primeiro artigo do livro (Sexo, Mentiras e Celuloide) saiu em 13 de janeiro de 2000 e o último, Stefan Zweig por Kubrick, traz como data 30 de julho de 2018.

“Sérgio é um espectador onívoro, que vai do tiro-porrada-e-bomba de Duro de Matar 4.0 à análise das muitas cenas em que Jean-Luc Godard faz seus atores aparecerem mergulhados em livros”, observa o jornalista Paulo Roberto Pires, no prefácio da edição, notando, de forma arguta, que o crítico é uma espécie de filho intelectual de um estranho casal formado por duas revistas clássicas, Cahiers du Cinéma e The New Yorker. “Do lado francês, trouxe o culto ao cinema como uma mistura singular de razão e sensibilidade, um olho na peripécia intelectual, outro no prazer inegociável da sala escura. Dos parentes americanos, herdou a tradição de um tipo de ensaísmo jornalístico que combina clareza e sofisticação com uma assombrosa capacidade de processar referências e invulgar talento para recombiná-las.”

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Trauma

O cinema sempre esteve presente na rotina de Sérgio Augusto. Ele conta que, quando menino, a mãe o levava em várias sessões. O hoje crítico não se lembra qual foi o primeiro longa que viu na vida, mas se recorda com detalhes do primeiro trauma: quando assistiu a Bambi, animação de Walt Disney de 1942, cujas cenas de violência, que usam armas de fogo, ainda são impactantes. “Entrei em um pranto compulsivo, minha mãe foi obrigada a me tirar do cinema. Foi um trauma de geração internacional”, comenta.

O tema crucial do desenho, aliás, é também o que o mais toca em se tratando de cinema. “Rejeição é um assunto muito delicado e inspirou cenas belíssimas”, conta. “Ainda fico emocionado quando Adam (Raymond Massey) recusa o dinheiro ofertado pelo filho, Carl (James Dean), em Vidas Amargas, filme dirigido em 1955 por Elia Kazan. Talvez eu tenha dado uma dimensão maior, mas o fato é que é um momento especial do cinema.

O universo cinematográfico é formado por verdadeiros gênios da sétima arte, o que dificulta eleições dos melhores. Mesmo assim, uma tríade forma, na opinião do crítico Sérgio Augusto, o seu Olimpo: os cineastas Alfred Hitchcock, John Ford e Elia Kazan. E, sem pestanejar, ele aponta as obras desses diretores que lhe são mais caras: Vertigo – Um Corpo Que Cai, Rastros de Ódio e Vidas Amargas, respectivamente.

“Hitchcock é um dos cineastas mais complexos de todos os tempos”, observa ele, fascinado tanto pela forma com que o diretor inglês se relacionava com seus elencos (notadamente os femininos) e também com a relação de Hitch com a literatura, em especial alguns escritores. Sobre o primeiro tema, Sérgio nota que o diretor inglês não era um tanto ou quanto sádico com suas atrizes apenas, mas também com as figuras femininas de suas fantasias cinematográficas.

Afinal, basta lembrar de Lisa, Madeleine, Marion e Marnie, quatro de algumas das mais representativas personagens de sua obra. “Lisa é a modelo interpretada por Grace Kelly em Janela Indiscreta (1954); Madeleine é a mulher que morre duas vezes em Um Corpo Que Cai (1958); Marion é a ladra encarnada por Janet Leigh em Psicose (1960); e Marnie, a cleptomaníaca vivida por Tippi Hedren em Marnie, Confissões de Uma Ladra (1964)”, anota ele, no artigo Hitchcock e as Mulheres Que Sofriam Demais. “Lisa e Marnie, afinal, se dão bem; mas Marion acaba punida pela sanha homicida de Norman Bates; e Madeleine despenca duas vezes do campanário da Missão de San Juan Bautista, a segunda com o corpo de Kim Novak.”

Já a relação de Hitchcock com a escrita inspira um dos melhores artigos do livro, ainda que uma eleição desse tipo não seja fácil – com o divertido título de Hitchcov & Nabocock, Sérgio Augusto mostra como o cineasta e o escritor naturalizado americano Vladimir Nabokov tinham almas irmãs. “O cineasta e o escritor mantiveram contato, invariavelmente por telefone, até pelo menos o final dos anos 1960, quando Nabokov se viu tentado a escrever o roteiro (adaptado) de Frenesi (1972), que compromissos inadiáveis o impediram de levar adiante. Anthony Shaffer fez um ótimo trabalho, mas a hipótese de um script elaborado por Nabokov até hoje excita minha curiosidade”, escreve.

O cronista do Caderno 2 questiona-se, em seguida, sobre a quantidade de filmes intrincados, complexos e eletrizantes que os dois artistas poderiam ter feito em parceria. Ele lembra de um ensaio de James A. Davidson, o primeiro e o único crítico a especular sobre as “afinidades menos supérfluas e exteriores entre Hitchcock e Nabokov, desde a influência que sobre os dois e suas obras exerceram Kafka e certos autores do século 19, como Edgar Allan Poe e Robert Louis Stevenson. Ambos devoraram obras dos autores na juventude, até o pronunciado gosto por ludibriar espectadores e leitores, brincar com os gêneros (Fogo Pálido, de Nabokov, é uma paródia da literatura detetivesca como Psicose, uma paródia do filme de terror) e deleitar-se com autorreferências”.

O cinema torna-se ainda mais fascinante, sob o olhar de Sérgio Augusto, especialmente quando se atém a detalhes que engrandecem o que seria diminuto. Cidadão Kane, por exemplo, o longa dirigido e interpretado por Orson Welles em 1941, considerado por inúmeros críticos o principal filme da história do cinema: a primeira vez que Sérgio teve contato com esse trabalho foi por meio de uma foto. “Uma revista portuguesa chamada Filme trazia uma imagem que se tornou icônica – a de Kane (Welles) discursando em um palanque e à frente de uma enorme foto com sua imagem”, relembra. “Foi graças a uma única imagem, um plano fixo, que tive a noção de como seria revolucionária a linguagem desse longa.”

Apesar de admirar aquele trio de cineastas (Hitchcock, Ford e Kazan), Sérgio não desconhece as qualidades de vários outros. Stanley Kubrick é um exemplo. Considerado por ele como um “diretor esquisito”, o inglês deixou verdadeiras obras-primas, mas o crítico gosta de se lembrar de duas. Uma delas é Nascido para Matar (Full Metal Jacket), de 1987. Baseado no livro The Short Timers, de Gustav Hasford, trata-se de um filme de guerra em que o combate é o menos importante – a brutalidade está na preparação dos soldados e não no campo de batalha. “O filme é impactante justamente por apresentar o pior antes das cenas de guerra, quando um rapaz enlouquece depois de sofrer no treinamento comandado por um superior.”

A outra é Dr. Fantástico, de 1964, libelo antimilitar em que Kubrick exerce sua capacidade de ironia ao apresentar um mundo governado por generais malucos, presidentes frágeis e líderes mulherengos e beberrões, tão incompetentes que o fim do mundo está sempre por um fio. “Um dos grandes méritos do filme está no roteiro de Terry Southern, dono de um humor devastador e que não tinha limites para apresentar os mais graves problemas da personalidade humana”, observa Sérgio que, no quesito de roteiros, aponta o de Chinatown como exemplo de precisão. Dirigido por Roman Polanski em 1974, o longa acompanha um detetive particular que se vê envolvido em uma rede de corrupção e assassinatos. “É uma escrita tão perfeita que se transformou em exemplo, nas escolas de cinema.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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