Cotidiano

Doações a vítimas de prédio que desabou em SP são alvo de conflitos

COMPARTILHE
84

GUILHERME SETO

Enade será aplicado neste domingo a 550 mil estudantes

Hoje (25), 550 mil estudantes de cursos de 27 áreas do conhecimento farão o...

Gasômetro explode na Usiminas em Ipatinga; veja o vídeo

Um dia depois da morte de um funcionário que realizava manutenção em um equipamento, um...

Brasil ocupa 59º lugar no ranking da leitura entre 76 países, aponta levantamento

A leitura é um direito de todos, inclusive de quem não enxerga. No Brasil,...

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – As doações recebidas pelos ex-moradores do edifício Wilton Paes de Almeida, que desabou no largo do Paissandu, desencadearam uma série de pequenos conflitos entre as vítimas, integrantes de outras ocupações e também moradores de rua.

Os entreveros têm acontecido logo na entrada da Igreja Nossa Senhora dos Homens Pretos, onde estão acampadas dezenas de famílias, cercadas por grades de ferro colocadas pela prefeitura e em torno das quais se amontoam pedestres com celulares, tirando fotos e fazendo vídeos.

Continua depois da publicidade

Ex-moradores do edifício que colapsou dizem que as doações têm acabado antes que cheguem até eles.

A reportagem presenciou discussão em que um homem era acusado de ter se infiltrado no grupo. Ele saiu do local depois de ser confrontado.

“O problema é maior ainda de madrugada. Trouxeram dinheiro para a gente e uma mulher pegou e foi embora. Ganhamos 40 barracas e depois cheguei a ver algumas sendo vendidas na cracolândia. Por isso que dá briga”, afirma Ana Paula Araújo, 30, que morava no prédio havia dois anos.

À noite, diversos moradores de rua dormem ao lado das grades, aguardando também a chegada de doações.

A migração de pessoas de outras ocupações ao largo do Paissandu foi percebida por quem não era do prédio.

Armando Lira, 58, designer gráfico que mora em ocupação na av. República do Líbano, na zona sul, afirma que duas pessoas que moravam com ele partiram para lá. “Foram receber doações. As pessoas querem comida, precisam de mantimento, não estão atrás de lucro. Conheço idosos e pessoas com necessidades especiais que estão fazendo esse movimento”, diz Lira.

As doações tendem a ser redundantes, limitando-se a roupas e alimentos básicos, como água e bolacha. Produtos de higiene, trajes íntimos e fraldas, por serem escassos, geram “cabos de guerra” entre os ex-moradores do prédio.

“Estamos bem de comida, mas precisamos de pasta de dente, escova, fraldas, absorventes. Parem de mandar cuecas e calcinhas usados, isso não serve para a gente. Se trouxerem fraldas, entreguem diretamente para as mães, senão pegam para vender”, diz Keliane Costa, 34, manicure.

Uma cartela de lâminas de barbear motivou desentendimento entre mulheres, que discutiram a posse dos objetos por alguns minutos.

Pequenos montes de roupas e de água se acumulam em uma barraca comandada por voluntários, que cuidam da distribuição dos itens. Pessoas acampadas ali dizem que eles sofrem ameaças para entregar objetos para pessoas do lado de fora do cercado.

“Falam que vão voltar, que vão bater, só falta sair morte”, disse ex-morador do edifício que preferiu não se identificar.

Os antigos habitantes do Wilton de Almeida têm ouvido que há doações em quantidade suficiente para que eles possam compartilhá-las com os que vem de fora. No entanto, a maior parte das doações não está no largo, e eles querem estocá-las para as próximas semanas, quando preveem que a atenção pública diminuirá e elas poderão faltar.

A Cruz Vermelha está centralizando o recebimento de doações, e já contabilizou mais de 15 toneladas de objetos diversos, que estão em sua sede, perto do aeroporto de Congonhas (zona sul). Diversas pessoas, empresas e até mesmo torcidas organizadas de futebol têm contribuído.

Após passarem por triagem, os objetos têm sido encaminhados para os centros de acolhimento da prefeitura, como o abrigo Pedroso (centro) e os CTAs, aos quais já se apresentaram cerca de cem pessoas que se declararam oriundas do edifício que caiu. A prefeitura concentra a distribuição de recursos nesses locais, inclusive como estratégia para que os acampados no largo do Paissandu aceitem encaminhamento ao abrigo.

Diversas dessas pessoas dizem que só sairão da frente da igreja quando tiverem a garantia de que terão um apartamento ou uma casa.

“Quem era da ocupação não sai daqui sem uma casa. A gente não quer albergue, a gente precisa de moradia digna”, afirma Ana Paula, que vende balas na avenida Paulista.

Invadido pelo movimento LMD (Luta por Moradia Digna), o prédio abrigava 171 famílias, com 475 pessoas.

ONDE DOAR

Sede da Cruz Vermelha

Av. Moreira Guimarães, 699, Indianópolis

Abrigo Pedroso

R. Pedroso, 111, Bela Vista

Aos próprios desabrigados

Largo do Paissandu

Publicidade