Espírito Santo

Índice de depressão em Muniz Freire chega a 80%, segundo pesquisa

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Um levantamento realizado por pesquisadores do Campus de Alegre da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes-Alegre) aponta que cerca de 30% dos moradores de áreas rurais do Caparaó capixaba apresentam sintomas de depressão. Muniz Freire é o município com o percentual mais alto, próximo de 80%.

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A constatação surgiu do trabalho do Programa Pesquisa para o SUS (PPSUS), projeto federal em vigência na universidade que visa fomentar o monitoramento de saúde aliado à pesquisa científica no país. O PPSUS de Alegre reúne pesquisadores de diversas áreas de conhecimento, que atenderam aproximadamente mil pessoas de 28 comunidades rurais nos últimos quatro anos, aplicando um questionário com mais de 600 perguntas e realizando avaliações clínicas.

Os resultados da pesquisa se referem a sintomas depressivos que incluem ideação suicida, mas não remetem a casos de pessoas diagnosticadas com a doença. “Apesar disso, é quase certo que essas pessoas teriam diagnóstico de depressão se fossem a um especialista”, ressalta a professora do curso de Ciências Biológicas da Ufes-Alegre Adriana Madeira, coordenadora do PPSUS.

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Um dos principais fatores apontados como causador dos sintomas é o alto volume de agrotóxicos utilizados na agricultura. Segundo Adriana Madeira, o Glifosato, um herbicida com grau elevado de toxicidade e proibido na Europa, mas liberado no Brasil, é o mais usado nas lavouras da região.

A relação direta entre agrotóxicos e depressão não é uma novidade para a comunidade científica. Entretanto, pesquisadores ainda quebram a cabeça para entender de que forma os defensivos agrícolas contribuem para o surgimento da doença.

“Uma das possibilidades é que o uso de agrotóxicos aumenta a quantidade de sintomas de doenças. O fato de o sujeito usar agrotóxico torna a saúde dele mais precária. A saúde mais precária, somada às condições de vida no campo, torna a percepção desses indivíduos sobre si mesmos pior”, explica Madeira.

“Existem duas perguntinhas-chave no questionário. Em uma delas, é questionado se a pessoa apresenta alguma doença crônica. A outra, se a saúde autorrelatada é boa ou ruim, ou seja, se ela se enxerga como alguém doente”, complementa a neurocientista Catarine Conti, pesquisadora da Ufes que atua no PPSUS.

Conti adiciona ainda a hipótese de o agrotóxico interferir diretamente nas substâncias bioquímicas do organismo e ocasionar os sintomas, mesmo que os estudos nesse sentido ainda não tenham encontrado respostas consensuais. “Essas substâncias tóxicas são absorvidas ao entrarem em contato com as pessoas. E os agricultores da região praticamente não usam EPIs (Equipamentos de Proteção Individual)”, afirma.

Mulheres

Os sintomas de depressão foram verificados com maior frequência no público feminino. As pesquisadoras avaliam que isso se deve à falta de autonomia das mulheres na região, que têm pouca independência financeira e social. As opções de lazer para elas também são escassas. “Muitas disseram terem como única atividade de lazer ir à igreja”, relata Adriana Madeira.

As mulheres também estão sujeitas aos malefícios dos agrotóxicos, mesmo que a maioria não trabalhe nas lavouras, pois elas são, em geral, responsáveis por lavar as roupas dos maridos que manipulam os defensivos agrícolas. Outro agravante é a insegurança alimentar, que aflige 25% dos moradores da zona rural do Caparaó. Quando as famílias passam por esse tipo de situação, as mulheres tendem a se alimentar menos para deixar comida para o marido e os filhos, pois se sentem na obrigação social de proceder dessa maneira.

Muniz Freire

Duas causas principais podem estar na origem do índice especialmente elevado de pessoas com sintomas de depressão em Muniz Freire. Um deles é o relativo isolamento geográfico do município, que tem estradas de acesso precárias e não é cortado por nenhuma rodovia de grande importância, desestimulando o tráfego e o contato com pessoas de outras cidades. A outra causa remete às atividades agrícolas e, mais uma vez, aos agrotóxicos. Entre os produtos mais cultivados no município estão as hortaliças, que têm resistência menor a pragas, estimulando ainda mais a utilização de defensivos agrícolas.

No último dia 19 de agosto, uma reunião foi realizada em Muniz Freire por iniciativa de representantes locais da Igreja Católica. Adriana Madeira e o pesquisador Geraldo Dutra, pós-graduando em Agroecologia pelo Ifes de Alegre, falaram para aproximadamente 80 pessoas sobre os benefícios da agroecologia e da adoção de hábitos de vida mais saudáveis, dentre outros assuntos. “Queremos que a pesquisa ajude a mudar a vida das pessoas, não fique só restrita ao ambiente acadêmico”, comenta Adriana.

Área urbana

Os pesquisadores do PPSUS também direcionaram suas atenções para os moradores da área urbana do Caparaó, tendo como referência de estudo Alegre, que está entre os municípios com maior consumo de antidepressivos no Espírito Santo. Os dados estão sendo analisados, mas uma visão prévia aponta um número ainda maior de pessoas com sintomas de depressão nas cidades.

Professora Adriana Madeira palestrou este mês para muniz-freirenses sobre hábitos saúdes e melhores práticas na agricultura

Foto: divulgação

 

 

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