ESTELITA HASS CARAZZAI

CURITIBA, PR (FOLHAPRESS) - No início, foram ovos. Depois, vieram copos de cerveja, garrafas, algumas pedras, cuspe e até lixo. Todos arremessados contra uma noiva que subia ao altar.

A noiva era a deputada estadual Maria Victória Barros (PP) -filha do ministro da Saúde, Ricardo Barros, e da vice-governadora do Paraná, Cida Borghetti.

O clã pepista, que está na política há três gerações, casava a caçula de 25 anos na noite desta sexta (14), em uma igreja histórica no centro de Curitiba, com recepção para 1.200 pessoas. O presidente Michel Temer (PMDB) foi convidado, mas não compareceu.

Em frente, dezenas de pessoas se reuniram para protestar contra o que chamavam de "casamento ostentação".

Uma estrutura metálica foi erguida no local da festa, a Sociedade Garibaldi, cujo prédio é um patrimônio histórico, a fim de abrigar os convidados. Arquitetos reclamaram da intervenção; e a coordenação do patrimônio cultural acabou autorizando a obra depois de erguida, mas multou os proprietários do edifício pela falta de pedido prévio.

Da rua, dava para ver o bolo de seis andares, uma parede de rosas vermelhas e doze lustres de cristal que decoravam a entrada.

A deputada foi eleita em sua primeira disputa, aos 22 anos. Em 2015, foi uma das que votaram a favor de um pacote fiscal do governo de Beto Richa (PSDB), que terminou em protesto com dezenas de pessoas feridas e cuja lembrança inflamava parte dos manifestantes.

"Essa galera não é gentil com nosso dinheiro. É uma classe de corruptos, bandidos", afirmou o estudante João Francisco de Almeida Júnior, 18, militante do PCdoB. "É um casamento feito com dinheiro público."

Ao seu lado, manifestantes reclamavam de falta de remédios nos postos de saúde, fim de direitos trabalhistas e votações tramitadas a galope.

CONFRONTO

Pouco antes das 19h, horário marcado para a cerimônia, teve início o protesto. Aos manifestantes, parte de sindicatos e partidos de oposição ao governo federal, somaram-se estudantes e frequentadores dos bares ao redor, aos gritos de "golpistas" e "Fora, Temer". Alguns carregavam cartazes criticando a condenação de Lula na Lava Jato, nesta semana.

Convidados eram vaiados e xingados na entrada. A noiva, chamada de "vagabunda" e "filha da puta", teve que ser escoltada por policiais -e guarda-chuvas- para chegar à igreja. Mesmo assim, teve o vestido manchado.

Na saída, convidados ficaram ilhados na igreja por quase duas horas, ao som de ovos espatifados contra as paredes. Um grupo de músicos tocava tambores e cornetas próximo às janelas. Cerca de 30 policiais do choque, com escudos e capacetes, cercavam a porta.

Os noivos e os pais saíram de van, escoltados pela polícia. Mais ovos foram atirados contra o veículo, que foi cercado. Convidados que seguiam a pé para a festa foram xingados e também tiveram copos e ovos arremessados contra si. Mulheres e crianças choravam, mas alguns discutiam e retrucavam: um deles mostrou o dedo do meio à rua, já na festa.

"A gente joga ovo, e eles jogam balas de borracha, bombas de gás", comentou o estudante Almeida Júnior.

Um convidado que se identificou apenas como Fred, sem dar o sobrenome, disse à reportagem que "foi um clima de pânico e terror". Ele chamou os manifestantes de bandidos e, o ato, de terrorismo.

Houve quem lamentasse a violência: "Não partiu de mim. Mas infelizmente era previsível", afirma o estudante de Direito Alexander Assumpção, 27. "O povo chegou ao limite."

Com um amigo, ele dançava em frente ao local da festa, ao som de "Fly Me to The Moon", interpretada por Frank Sinatra.

"Não excedeu, porque estamos cansados. É uma revolta ao extremo. Cada dia perdendo direitos", afirmou o professor Diego Matos Barbosa, 30, que acabou na manifestação por acaso.

Havia relatos de ao menos duas pessoas feridas -um manifestante e um policial. Por volta das 22h, a PM ainda soltou uma bomba de gás para dispersar parte dos manifestantes e permitir a saída dos últimos convidados da igreja.

"Em qualquer evento com aglomeração de pessoas e possibilidade de confronto, a polícia tem a obrigação de guarnecer", disse o secretário da Segurança Wagner Mesquita, que também era convidado da festa. Segundo ele, somente o efetivo do centro de Curitiba foi mobilizado para o evento, diante dos protestos. "Não existe partidarismo aqui; em qualquer evento de qualquer movimento organizado, nós estaremos lá."

Em nota, a PM informou que foi acionada "em face de manifestações agressivas", e que atuou pela "segurança dos manifestantes e a garantia da liberdade de ir e vir".

A festa seguiu sem intercorrências. Pouco depois da 1h, Victória jogou o buquê. Barros não quis comentar o episódio, assim como outros membros da família.
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