RICARDO BONALUME NETO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Cientistas são animais migratórios". Assim começa um estudo especial da revista científica americana "Science" sobe migrações. Mas até que ponto essa mobilidade é benéfica para o país que recebe, e, principalmente, para o país que envia esses exóticos animais ao exterior? A migração de cientistas de um país para outro costuma ser chamada, afinal, de "drenagem de cérebros" ("brain drain").

Os dados mostram um crescimento constante desde 1990 no número de cientistas estrangeiros imigrando para os Estados Unidos. Mas, em 2002, esse fluxo estagnou, possivelmente por causa dos ataques terroristas de 2001, só voltando a voltar a crescer significativamente em 2008.

As políticas contra imigração defendidas pelo presidente americano Donald Trump como um modo de supostamente reduzir o risco de atentados terroristas poderão afetar de novo esse fluxo. Além da pesquisa, a "Science" convidou vários cientistas sociais para comentar o tema, em um momento em que "retórica e atos chamativos de manchetes mexem com paixões ao redor do globo".

Os dados foram compilados de uma fonte original, a Orcid, uma organização sem fins lucrativos que atribui códigos de identidade para pesquisadores que não querem ser confundidos com outros com nomes iguais ou semelhantes. Dos cerca de oito milhões de cientistas do planeta, três milhões têm códigos da Orcid.

"Embora o conjunto de dados represente em excesso alguns países da União Europeia e sub-represente a China, a análise da 'Science' revela intrigantes padrões de migração. Por exemplo, cerca de um terço dos que obtiveram o doutorado no Reino Unido estavam vivendo em outro país em 2016. Mas apenas cerca de 15% dos doutores de outras nações da UE migraram para longe", afirma o estudo.

Em dois artigos que acompanham o estudo, Jennifer Hunt, da Universidade Rutgers, em New Brunswick, Nova Jersey, EUA, afirma que "há debates animados em países ao redor do mundo sobre como estimular o crescimento econômico e o quanto os imigrantes contribuem para a economia. Minha pesquisa sobre a economia dos EUA mostra que a imigração qualificada aumenta patentes, o que provavelmente impulsionará o crescimento econômico per capita."

Outros três autores -Giuseppe Scellato, da Politécnica de Turin, Itália; Chiara Franzoni da Politécnica de Milão, Itália; e Paula Stephan, da Universidade Estadual da Geórgia, EUA- afirmam que "embora os cientistas sejam altamente móveis internacionalmente, nem sempre fica claro se a mobilidade é benéfica e, em caso afirmativo, em que circunstâncias".

Os três trabalharam em uma pesquisa internacional sobre cientistas, a GlobSci Survey, realizada em 16 países, incluindo o Brasil.

"A intenção da nossa pesquisa foi analisar os efeitos da produtividade associados à migração no nível individual ou micro. O conceito de 'Brain Drain' definitivamente se relaciona com a macro questão do efeito global da mobilidade. Embora esse não seja o nosso foco principal, nossa pesquisa aborda maneiras pelas quais a mobilidade é benéfica para os países do Terceiro Mundo", declarou Stephan à reportagem.

"Em primeiro lugar, na medida em que alguns migrantes retornam -e encontramos uma proporção maior do que a média de retornados no Brasil- esses migrantes são mais produtivos do que indivíduos no país de origem que não foram móveis. Em segundo lugar, os indivíduos móveis estão associados com o aumento da produtividade. O conhecimento produzido está assim disponível para os indivíduos no país de origem, bem como para outros países. Em terceiro lugar, em um de nossos artigos, examinamos os padrões de colaboração de indivíduos móveis e nossos resultados indicam que os indivíduos móveis colaboram com indivíduos em seu país de origem", acrescenta a pesquisadora.

Para John Bound, da Universidade de Michigan em Ann Arbor, EUA, a possibilidade de migração pode ter dois efeitos potencialmente positivos sobre a força de trabalho científica nos países de origem. Ela pode incentivar o estudante talentoso no país em desenvolvimento a buscar uma instrução científica; e há a migração de retorno.

"Indiscutivelmente, no nível de doutorado, Taiwan, Coréia do Sul e China se beneficiaram significativamente dos migrantes que retornaram. No contexto da indústria de tecnologia de informação, ambos os mecanismos beneficiaram a Índia. Para que qualquer um desses dois mecanismos funcione, é importante que os países emissores tenham instituições que apoiem estudantes e cientistas que retornam", declarou Bound.

O economista brasileiro Breno Gomide Braga trabalha com Bound nos EUA. "Eu concordo com os dois pontos levantados pelo John. Mas também tenho um argumento a acrescentar. A migração de cientistas pode ser também benéfica para o Brasil porque muitos cientistas continuam pesquisando temas de interesse do país mesmo morando no exterior", disse Braga à reportagem.

"Em geral, cientistas encontram melhores condições de trabalho e recursos para sua pesquisa fora do Brasil. Acho que meu caso é um bom exemplo. Apesar de morar fora do país, parte da minha pesquisa é relacionada ao Brasil. O meu centro de pesquisa me fornece recursos que dificilmente encontraria em uma instituição brasileira. Por trabalhar nos EUA, também tenho maior facilidade de acesso a conferências científicas e outros pesquisadores. Todos esses fatores influenciam na qualidade do meu trabalho sobre a economia brasileira. A mesma lógica se aplica a um cientista estudando uma vacina contra o vírus da zika em uma universidade americana, por exemplo", conclui o brasileiro.
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