“A sociedade condena a mulher que não quer ter filhos, mas tolera o homem que, mesmo tendo filhos, escolhe não ser pai”. Na teoria estaria claro: “tanto o pai como a mãe, possuem responsabilidades em grau de igualdade para com a educação e criação dos filhos”. No entanto, na prática, ou na vida como ela é, o que se observa é algo um tanto discrepante do que se deveria ser realmente. Hoje em dia, infelizmente, uma pequena parte quer ter esse compromisso. Mas há aqueles que fazem questão de dividir o papel com a mãe, ou por vezes, até sozinho. Tanto o pai como a mãe, são de vital importância na criação de um filho, na formação de seu caráter e na preparação deste como um verdadeiro cidadão para o mundo.

Pai de três filhos, o pastor presbiteriano e psicólogo Sérgio Oliveira divorciou-se em 2010. Na época, sua ex-esposa decidiu deixar Alegre, cidade onde o casal morava, para viver em Iúna, berço de sua família. Os filhos, porém, ficaram com o pai - e por opção dos garotos, que já tinham idade suficiente para escolher. “Geralmente é o inverso, né, o pai é quem sai de casa. Aqui a gente contrariou a regra”, conta.

De fato, Sérgio faz parte do grupo de pais que, ao contrário do que dita o senso comum, cuida diretamente de tarefas domésticas e da criação dos filhos. Nesse modelo de “paternidade contemporânea”, a supervalorização da figura materna como detentora de maior afeição ao lar e aos filhos não tem vez.

“O que eu percebo é que na dinâmica de uma família com pai e mãe casados ainda persiste a ideia da mãe como a maior responsável pelos filhos, enquanto o pai parece ser meramente um reprodutor, sem responsabilidades. E quando a mulher decide sair de casa ela é acusada de cruel e egoísta. Mas o homem tem a mesma capacidade e responsabilidade de criar os filhos que a mulher” opina o psicólogo.

Quando os garotos eram mais novos, Sérgio cuidava das tarefas pela manhã para poder trabalhar à tarde. Atualmente, Ian (16), Gustavo (17) e Eric (21) também entram na escala de tarefas. “Funciona muito bem. Eles são meio bagunceiros, mas não ligo, sempre tiveram autonomia. Quem vai dormir no meio da bagunça são eles”, diz.

A experiência como psicólogo faz Oliveira dar muito valor à liberdade e autonomia dos filhos. “A figura masculina tem muita responsabilidade em cortar o cordão umbilical psicológico dos filhos com as mães e mostrar a eles que existe um mundo lá fora. É muito comum pessoas com algum tipo de dificuldade de realizar tarefas sozinhas porque não conseguiram se desvincular da mãe, ou então porque a figura paterna é ausente ou fraca”.

 

Flexibilidade de tempo

Com dez anos de casado, Luciano de Freitas Lahas, 41 anos, assumiu essa dinâmica familiar com a sua esposa Andréa Ravaglia Abreu Lahas por conta de uma maior flexibilidade de tempo profissional. Trabalhando no setor de alimentos, viram a viabilidade de seguir neste caminho pouco comum nos dias atuais. “Hoje passo muito tempo com eles. Tenho uma boa flexibilidade de horários que me permite levar e buscar, ao balé, futebol, natação, escola entre outros. Dou almoço e também levo para trabalhar comigo, quando eles querem”, conta.

Além dos três filhos com Andréa, Lucas (9), Luisa (6) e Laís (4), Luciano é pai de Maria Carolina (17), fruto de outro relacionamento que teve quando morava em Vila Velha.

Essa participação se intensificou quando se mudou para Cachoeiro de Itapemirim, há aproximadamente três anos. Luciano percebeu que se mantinha ocupado demais e dava menos atenção que as crianças mereciam. “Nossa convivência cresceu muito, pois quando morávamos em Vila Velha, eu estava sempre ocupado ou distante, não tinha tempo”, explica.

E o relacionamento no seio familiar não poderia ser melhor. Segundo Luciano, o modelo “pai contemporâneo” passou a ser admirado por amigos dos filhos. “Esta semana, a Luisa, de seis anos, disse que seus amiguinhos de escola queriam ter um pai com o dela, que está sempre na escola, passa para ver uma educação física ou balé”, brinca.

A escolha da programação por muita das vezes fica por conta da criançada. A rotina pode ser um pouco estressante em algumas das vezes, mas o pai explica que como o tempo passa muito rápido, é satisfatório passar cada vez mais tempo com os filhos.

“Às vezes a rotina é um pouco estressante, mas tenho que dar valor, pois o tempo não volta, se tem a possibilidade de fazer faça, pois as crianças crescem cada dia mais rápido. Dividimos tudo da maneira que podemos, mas normalmente, é feito o que as crianças querem, são três contra dois. Sempre perdemos”, conta rindo Luciano.

 

Pai é quem cria!

Diferente de gerações passadas, quando a figura do pai estava ligada à autoridade, o pai contemporâneo em geral é mais próximo dos filhos e demonstra seu afeto, o que não implica em abrir mão da disciplina. Os laços afetivos e a confiança são fortalecidos.

O comerciante Magno Clayton de Freitas Lourenço, 38 anos, começou o seu relacionamento com Patrícia Victória de Andrade Lourenço há 16 anos. Na ocasião, sua esposa, há 10 anos, já tinha uma filha. “Paloma tinha dois anos quando comecei a namorar com Patrícia. A experiência como padrasto é maravilhosa. Eu sempre tentei passar para ela os valores morais que meus pais me ensinaram. O que é certo e o que é errado. Procurei levar Paloma para igreja e demonstrar a palavra de Deus. Durante a noite eu lia histórias da bíblia, nestes livros para crianças”, conta Magno.

Sempre muito unidos, a programação do trio depois do expediente era basicamente a mesma. Filmes ou seriados durante a semana e uma viagem nos finais de semana. “De manhã saíamos de casa juntos, cada um com seu destino: Patrícia no trabalho e Paloma na escola. Após as 17h30, eu ia buscá-las e em casa, na maioria das vezes assistíamos filmes ou seriados. Nos finais de semana, era cinema ou um passeio para o litoral”, lembra.

Patrícia está grávida e o casal aguarda agora a chegada do primeiro filho: Isaac. A ansiedade é grande para voltar a ter um filho morando em sua casa, já que Paloma passou no vestibular para medicina veterinário em uma universidade na Bahia. “É muito importante de passar este tempo com os filhos. Aproveitar, pois o crescimento é muito rápido e logo eles saem de casa para seguir a vida. Agora estamos esperando a chegada do Isaac que toda certeza receberá a mesma educação e todo o amor que demos a Paloma”, finaliza.

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