Na noite da ultima quinta-feira (8), o governador em exercício, Cesar Colnago recebeu a reportagem da Associação dos Diários do Interior (ADI/ES) para uma entrevista. Iria fazer um balanço sobre os 12 dias em que esteve a frente do Palácio Anchieta do Estado substituindo o governador Paulo Hartung que estava em viagem ao exterior buscando atrair novos investimentos para o Espírito Santo.

Nesta entrevista, Colnago fez muito mais do que isto. Com ampla sintonia com Hartung, ele conhece profundamente os problemas do Espírito Santo e segue o planejamento do governo para buscar soluções ultrapassando as barreiras das crises política e econômica do País e colocando o Estado em situação de destaque no cenário nacional.

 

Qual o balanço que o senhor faz destes 12 dias em que esteve a frente do Palácio Anchieta?

O governador Paulo Hartung estabeleceu, por meio de sua liderança, uma equipe e um planejamento de suas prioridades. Quando ele sai, por termos uma relação muito afinada, não se nota diferença. Existe um caminhar que mantém tudo dentro da normalidade. Não há sobressaltos. Ele foi para uma tarefa importante fora do país buscando contatos com investidores, principalmente, na área portuária, e no comércio exterior. Eu fiquei tocando o dia a dia. Tivemos uma agenda intensa no Palácio Anchieta, recebendo entidades de classe, representação da Findes, a um grupo de jovens ligados ao setor produtivo, com jornalistas do interior.

 

O senhor também visitou muito o interior do Estado.

Eu gosto muito do interior. Estivemos em diversas atividades ligadas a crise hídrica. Visitamos uma obra importante de captação de água nos Rio Reis Mago no município da Serra que vai atender 150 mil pessoas no Norte de Vitória e Serra aliviando a carga do Rio Santa Maria e adicionando nova fonte de captação para a região. Uma obra de R$ 70 milhões. Estive em um seminário sobre a questão hídrica em São Mateus. Visitamos Quilombolas onde também discutimos sobre esta. Estamos encerrando nossa agenda visitando dois assentamentos em Nova Venécia e Montanha, dando Ordens de Serviço para a construção de barragens. Inauguramos um CRAS em Dores do Rio Preto. Estivemos visitando a obra de duplicação e ciclovia na entrada de Cachoeiro de Itapemirim. Uma obra muito importante para a região. Fomos ainda a Caparaó para discutir investimentos no local que terá novas trilhas de acesso pelo Espírito Santo. Visitamos uma empresa que fabrica adubo orgânico utilizando esterco de aves da região de Santa Maria. Participamos de diversas atividades culturais como o lançamento do livro sobre a cultura alemã do escritor Helmar Rolke. Ele ficou 40 anos pesquisando e mostra a importância dos alemães para o desenvolvimento na área central serrana. Enfim, tivemos uma agenda com uma dimensão que passava pelo social, pela infraestrutura urbana e rural e pelo desenvolvimento econômico. Foi uma agenda muito plural.

 

Muito se fala sobre a interiorização do crescimento. Como promover este desenvolvimento com a atual crise hídrica?

A crise hídrica esta em nossa agenda de trabalho como prioridade. Primeiro temos que investir na recomposição florestal, principalmente nos topos dos morros. O Estado tem dois programas neste sentido. Captamos recursos do Banco Mundial para o Programa Águas e Paisagens que está sendo realizado em 11 municípios da Região do Caparaó e vai contribuir com os rios Itapemirim, Itabapuana e Jucu. Por meio deste programa vamos tratar o esgoto destas 11 cidades e fazer a recomposição florestal dos topos dos morros. São quase R$ 1 bilhão do Banco Mundial e R$ 400 milhões de contrapartida da Cesan. O outro programa é o Reflorestar que é conduzido pela Secretaria de Meio Ambiente. O objetivo é estimular os produtores rurais para que eles reponham a mata ciliar, façam a recomposição dos topos dos morros e a proteção de nascentes.

Estes são projetos de médio e longo prazo. Quais as ações de curto prazo?

Eu falava das ações verdes. Agora temos a construção de caixas secas e barragens. Vão desde as micro barragens até as grandes como a estamos concluindo em Boa Esperança que representa um investimento de R$ 8 milhões. É um programa grande ligado a Secretaria da Agricultura. Priorizamos a construção de barragens que vão atender principalmente a quem tem menos recursos como assentamos. Fazer com que a água que caia não vá embora é fundamental para evitar novas crises. Além disto, estamos buscando as águas profundas fazendo poços artesianos como o exemplo de Alto do Rio Novo. E o terceiro programa é diminuir o consumo de água. É a conscientização para que as pessoas possam usar apenas o que precisam na indústria, na agricultura e nas residências. Todos precisam ter consciência que estes recursos não são inesgotáveis. Precisamos economizar mudando os processos de produção industrial, de irrigação e o desperdício do consumo interno nas casas.

 

O senhor acha que esta crise hídrica pode ser um grande inibidor para o desenvolvimento do interior do Estado?

A gente sabe que 67 municípios capixabas dependem da agricultura então o insumo água é fundamental. Esta crise precisa ser combatida com urgência. Precisamos estimular a sociedade para que as pessoas possam se organizar e reverter esta situação.

 

Com relação a novos investimentos industriais para o interior? Tem alguma novidade neste sentido?

Nossa ideia é sempre desconcentrar nossa industria principalmente dos grandes centros como a Grande Vitória e, hoje, a região Litorânea do Estado. A região mais empobrecida do Estado está mais concentrada no Oeste, na divisa com Minas Gerais. Se avaliar o IDH da área do Caparaó, onde a crise hídrica é menor, até a região de Mucurici, Ponto Belo e Ecoporanga, é onde temos os menores Índices de Desenvolvimento Humano, maior índice de pobreza. Levar o desenvolvimento utilizando as potencialidades da agroindustria e do agroturismo é fundamental. Temos que descentralizar as atividades atendendo as vocações de cada município. Quando se olha os investimentos privados e públicos se observa que eles estão mais concentrados na região litorânea. Nas regiões Noroeste I e II os investimentos são muito menores. Temos que levar a infraestrutura pública para estas regiões e estimular os investidores privados. Temos como exemplo a fábrica de MDF na região de Pinheiros.

 

Nesta viagem do governador há alguma novidade de investimentos para estas regiões?

Quando se pensa em desenvolver as atividades portuárias significa que vamos ter que construir outros modais para ter o porto funcionando. Por exemplo, temos avançados projetos de ferrovias da região central do Brasil para o Estado, isto significa passar pelo interior do Espírito Santo. Melhorando a infraestrutura da BR 262, BR 101 e investindo em portos e ferrovias, vamos atrair investimentos privados das mais diversas áreas que vão beneficiar o Estado como um todo. A visão de nosso governo é estar cada vez mais preocupado com a descentralização e para isto investimos na infraestrutura para proporcionar este desenvolvimento. A questão hídrica e a educacional são fatores importantes para isto.

 

Fazer parte da Sudene tem sido fundamental para o Norte do Estado e o Sul reivindica esta mesma situação. Mas alguns alegam que se isto ocorrer, o Rio de Janeiro também vai querer fazer parte da Sudene se tornando o estado que mais vai atrair investimentos. Como o senhor vê esta situação?

A Sudene está contida no semi árido e por isto não se estende ao Sul do Espírito Santo e Rio de Janeiro. Eu vejo que precisamos ter políticas de desenvolvimento regional com a utilização dos incentivos fiscais. Estamos olhando com muito carinho a região do Caparaó, do extremo Sul capixaba que chamamos de zona quente. Temos que estimular os investimentos para estas regiões por meio de uma política de incentivos fiscais.

 

A concessão de incentivos fiscais também é polemica. Muitos dizem que o Estado abre mão de uma receita que, principalmente, em época de crise, não deveria.

O Estado não abre mão de nada. Abriríamos mão se a empresa estivesse aqui há 50 anos instalada e eu deixasse de cobrar imposto dela. Mas na falta de uma policia nacional de desenvolvimento regional, atrair empresa que gere renda e crie empregos para o Estado para que no futuro gere tributos estamos estimulando a atividade econômica fazendo o País crescer, o Espírito Santo crescer. Não se abre mão daquilo que não se tem. Se não dermos incentivos, a empresa não vem para cá. Por exemplo, tem uma empresa que esta discutindo conosco e com o Paraná para saber aonde vai se instalar. Ela vê quem oferece as melhores condições. Se estiver dentro de nossa política de desenvolvimento e dentro do que é aceitável lógico que vamos trazer porque ela vai gerar, para cada 10 mil aparelhos construídos, 60 mil empregos. O Brasil, segundo eles, tem uma demanda de 300 mil aparelhos. Vamos gerar emprego na área de informática e de outras empresas satélite que giram em torno dela. Se não dermos incentivos ela não virá. Não estamos perdendo, estamos atraindo uma empresa para gerar emprego e renda para o Estado. É a falta de uma compreensão melhor sobre a guerra fiscal que vivemos por falta de uma política nacional de desenvolvimento regional.

 

Como o senhor está vendo o processo eleitoral e qual o cenário político vislumbrado para o próximo ano?

O Estado vive um momento econômico, financeiro e fiscal muito difícil. Estamos buscando o equilíbrio. Não tem sido fácil. Estamos lançando mão de empréstimos junto ao Banco do Brasil priorizando o pagamento do servidor e mantendo os serviços essenciais como saúde, educação e segurança para que a população capixaba não veja o Estado se desorganizar. Estamos fazendo investimentos com recursos captados, em sua maioria, no Banco Mundial, BNDES. A poupança que tínhamos e a capacidade de investimentos que passou de 15% não temos mais. Mas estamos mais organizados que muitos outros estados do País. Estamos tentando manter a máquina arrumada e buscando investidores para reverter a queda da atividade econômica. É uma crise nacional muito grande e ela é genuinamente brasileira. Entendemos que a crise vai passar e vamos estar preparados. Por isto que o governador esta atrás de investidores para trazer atividades econômicas que ajudem o governo fazendo a implantação de projetos de infraestrutura que são fundamentais. As eleições municipais não atrapalham em nada. Vivemos em um País democrático pluripartidário. Vamos trabalhar com todos os prefeitos escolhidos pela população em cada município. Evidentemente que o governador fica na posição de ajudar a enfrentar os problemas do Estado. Vamos participar, na medida que pudermos, nos horários de final de semana.

 

Os projetos Escola Viva e Ocupação Social são os carros chefes deste governo. Como estão eles?

São dois projetos que quebram paradigmas e que queremos ver implantado melhorando nossa educação. O Escola Viva está em Cachoeiro, Muniz Freire, Ecoporanga, Serra e Vitória. Nossa ideia é expandir para 30 escolas até o final do mandato. Evidentemente que temos boas escolas que estão melhorando nosso Índice de Desenvolvimento de Educação Básica (Ideb). O que nós precisamos são escolas que atraiam e empolguem nossos jovens garantindo mais conhecimento, mais cidadania e promovendo o desenvolvimento de sua vida.

 

E com relação ao Ocupação Social?

Este projeto surgiu baseado em um diagnóstico realizado pela Secretaria de Ação Estratégica que agora está na Secretaria de Direitos Humanos. Levantamos os 25 bairros onde havia o maior número de homicídios e vulnerabilidade dos jovens e adolescentes e começamos a trabalhar. Nosso alvo são 18 mil adolescentes e jovens que estão mapeados nestes 25 bairros da Grande Vitória, Cachoeiro, São Mateus, Colatina e Pinheiros. Nestes lugares estão 40% da taxa de homicídio do Estado. Fizemos um censo entrevistando 6,2 mil destes jovens. Captamos aquilo que eles desejam. Eles queriam voltar para as escolas ou terem cursos de capacitação para entrar no mercado de trabalho. Boa parte deles, entre 20 e 24 anos, já tem filhos e precisam trabalhar para sobreviver. Juntamos IEL, Sebrae, enfim, todas as entidades que querem ajudar e trabalhamos para realizar ações ligadas a cultura, esportes e educação. Temos varias turmas de capacitação. São cursos de fotografia, DJ, estética, salão de beleza. O governo sabe que não pode tudo sozinho e a ajuda da iniciativa privada tem sido muito importante para a expansão do projeto. É animador. Temos jovens que já voltaram a estudar e querem fazer um curso superior.

 

O senhor acha que este programa está ajudando a reduzir os índices de violência no Estado?

A redução dos índices de violência que vemos hoje no Estado é resultado de muitos investimentos que fizemos há muitos anos atrás, desde os primeiros governos do Paulo Hartung. É lógico que atuar no social, na saúde, na educação, nos direitos humanos, tudo impacta nos índices de violência e mantém este ritmo de queda.

 

Em São Mateus o senhor viveu momentos de grande emoção e foi homenageado pelos alunos da Escola de Música. Como o senhor se sentiu considerando, até o programa de ocupação social desenvolvido pelo governo?

Tivemos neste período muitos contatos com os jovens. Jovens ligados as atividades econômica, filhos de industriais, jovens que serão beneficiados com a ampliação do sistema IEL, Sesi e Senai em Serra. Ali teremos vagas para nossos alunos que participam do programa Ocupação Social e tivemos com os jovens da Lira Mateense que tem uma importância muito grande porque são mais de 100 anos de existência. Existem lugares que me emocionam muito quando eu vou. Quando vejo jovens ligados a música que gosto muito e da Sociedade Pestalozzi.

 

No mundo conturbado de hoje, o que deve nortear a conduta das pessoas e, em especial, dos governantes?

Primeiro o princípio da verdade. É preciso ser muito verdadeiro e transparente. Devemos estimular muito a participação da sociedade e, para isto, implantar políticas que são fundamentais para o desenvolvimento humano. A política educacional tem que estar em primeiro lugar. Temos que garantir o acesso a serviços essenciais como saúde, transporte, segurança publica, mas acima de tudo é se conduzir voltado para os princípios da solidariedade e cooperação. Não dá para achar que sabemos tudo, que temos uma sabedoria que esta acima de todos. No mundo da informática, de redes, precisamos dialogar e por meio do diálogo construir uma gestão cada vez mais democrática e transparente para errar menos e acertar mais.

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