O ex-prefeito Luciano Machado, hoje filiado ao PSDB, está a 10 anos sem mandato, mas seu nome é sempre lembrado nas rodas de conversas sobre política, como provável pré-candidato a prefeito de Guaçuí. E como ele afirma na entrevista concedida à Folha do Caparaó, até pouco tempo ele tinha três opções, para se posicionar. E foi o que fez nas afirmações a seguir, aproveitando também para falar do “mandato que lhe foi roubado brutalmente”, como muitos de seus amigos e eleitores enfatizam, segundo Luciano. Leia a entrevista na íntegra.

Luciano, este ano completa 10 anos que você está sem mandato. Mas mesmo assim, segundo levantamentos, você sempre aparece em destaque na preferência da população. A que você atribui este fato?

Primeiro, quero dizer que isso me dá imensa alegria e aumenta a responsabilidade com os amigos eleitores de minha terra. Agradeço a Deus, pois pela injustiça que sofri, vejo que o carinho das pessoas vem em forma de manifesto, como que querendo dizer: "Queremos devolver um mandato que lhe foi roubado brutalmente". Isso é reanimador.

 

Sua pré-candidatura é muito comentada e gera grande expectativa. O que vai decidir?

Isso tem me deixado angustiado. Veja bem, estou em uma fase que, se analisar o aspecto psicológico, há realmente grande expectativa pela minha candidatura a prefeito. Por outro lado, apesar de hoje eu ter todas as certidões necessárias para o registro, mesmo assim, corro o risco de alguém pedir a impugnação. Neste caso, se for acatada, mesmo que eu tenha defesa, vou ter que passar a campanha lutando em uma área que, mesmo os amigos mais próximos, sabem da fragilidade jurídica que me persegue. Fui tirado do mandato, em 2006, por um desembargador que, seis meses depois, foi preso pela Polícia Federal, acusado de vender sentenças no Tribunal de Justiça.

 

Mas existe alguma coisa que pode complicar sua candidatura?

Estou com um dos advogados mais conceituados na esfera eleitoral do Espírito Santo, que é o Dr. Maldonado, e ele me dá um percentual alto de segurança, mas como já disse, preciso de segurança total, porque não tenho o direito, não mereço e nem meus amigos merecem passar toda uma campanha de insegurança, instabilidade, fatos que dificultam a agregação, minimizam o volume de campanha, passam a não gerar confiança. Já passei por isso e é doloroso. Minhas contas da gestão de 2005 foram para a Cãmara Municipal, em 2010, onde tive a maioria dos votos dos vereadores. Ganhei de 5 a 4, mas essa matéria precisa de dois terços, ou seja, de maioria absoluta. Assim, foram rejeitadas. Há um questionamento jurídico, pois em 2005, ano da gestão, eram cinco anos de inelegibilidade. Em 2008, passou para oito anos. Esse é um complicador, pois há entendimento que o prazo passa a contar a partir da votação na Câmara. Quer dizer, só estarei liberado, com tranquilidade, a partir de janeiro de 2018. Lógico que tem muitos políticos por esse Brasil afora com problemas e impedimentos muitas vezes mais graves que esse... Mas aqui é Luciano Machado (Risos).

 

E aí?

Tenho conversado com Deus, pedindo sabedoria, humildade e discernimento. Pedindo para deixar qualquer vaidade de lado, para que, da minha boca, só saiam palavras de esperança. Penso que minha decisão pode trazer dois tipos de frustração: A primeira, de não ser candidato, desapontando aos eleitores e a mim mesmo, pois como diz a gíria: “o cavalo está arreado”. A segunda, que para mim é frustração maior, que é a de me lançar candidato, pedirem minha impugnação, a justiça eleitoral acatar e aí começar a novela, que pode, que não pode, que estou mentindo para os guaçuienses. Tenho que evitar isso, que enfraquece, gera insegurança, não aglutina. Não posso correr esse risco. Tenho que ter responsabilidade e amor com as pessoas que acreditam em mim e querem me ver feliz, querem que eu recupere minha história política. Portanto, decidi que é inviável colocar meu nome na disputa. Senti também a necessidade de dar ciência a toda a população guaçuiense dessa minha decisão. Não poderia ficar adiando mais. Faltam menos de cinco meses para a eleição.

 

Então, Qual vai ser sua posição? Quem terá seu apoio?

Olha, a três dias, eu tinha três opções: ser candidato, ficar neutro ou apoiar a reeleição da prefeita Vera.

 

E agora?

Ouvi muitos conselhos e ficar neutro é covardia. Tenho viajado a trabalho por todos os municípios do Espírito Santo, alguns de Minas e do Rio de Janeiro. Vejo a insatisfação geral do povo em relação à política apodrecida que domina o País. Falando em Espírito Santo,, posso garantir que a administração da prefeita Vera está entre as melhores do nosso Estado, com facilidade, entre as 10 melhores gestões municipais. O que vejo é que falta fazer a parte política, da relação com formadores de opinião. Talvez, por ser mulher, há a inibição de estar presente em determinados ambientes, mas acho importantíssimo, por exemplo, o prefeito ou a prefeita parar lá no calçadão da Beira Rio, onde sempre tem dezenas de homens jogando malha, ouvir opiniões, parar no ponto de taxi, ouvir as reclamações, sugestões, coisas assim. É a parte política que acaba contribuindo para ter entendimento em relação ao pensamento popular. Mas acho que é algo fácil de ser corrigido e depende bastante da equipe de governo. Muitas vezes, em uma equipe, há pessoas que têm condições de render muito mais e ficam presas a limitações burocráticas. É preciso dar uma sacudida e levantar poeira. sentir o calor humano. O que é visível e extremamente positivo na administração municipal em Guaçuí, é o cumprimento da responsabilidade fiscal, pagar as contas em dia. Manter a estabilidade econômica. O administrador que não prioriza esse tema compromete o futuro das famílias. Veja que a administração atual paga cerca de 500 mil reais por mês de precatórios e dívidas diversas. Em um ano, dá um montante de quase 6 milhões de reais. Sem exagero, esse valor daria para criar e manter uma faculdade municipal, dar aumento aos servidores, daria para calçar todas as ruas e embelezar a cidade, daria para ter uma saúde como referência em qualidade, uma agricultura e pecuária de ponta, enfim, são tantas as melhorias que poderiam ser transferidas para a população, dando qualidade de vida. Mas... não adianta ficar lamentando. É continuar trabalhando, com responsabilidade, e corrigindo detalhes que podem parecer pequenos, mas que são importantes para o sucesso almejado.

 

Você não falou enfaticamente, mas essa sua aprovação da administração de Vera Costa, te leva a apoiá-la para reeleição?

Eu vejo que precisamos ter muito cuidado, hoje, ao avaliarmos candidaturas. Eu vejo uma administração que não está errando na questão administrativa, não está envergonhando a cidade. Acho que as pessoas que têm alguma crítica podem chegar e dar um opinião e a administração ter sensibilidade para receber essa crítica. Mas não há administração que não tenha críticas. As mais aprovadas do mundo têm pontos frágeis. Eu tive pontos frágeis. Todos têm fragilidades. Então, é a última possibilidade de um prefeito ser reeleito e vejo que a Vera merece essa reeleição, porque ela pode ter um mandato com mais reusltados, com essa parte política mais efetiva e, administrativamente, acho que seria impossível, dentro das reais condições econômicas do País, fazer mais do que ela está fazendo. Então, eu vejo que ela merece ter esse segundo mandato. Por isso, a minha decisão vai ser neste sentido, como disse, até para pessoas que são adversárias, eu disse que tinha a chance de ser candidato e, se não fosse, não apoiaria ninguém contra a Vera.

 

E voltando a falar do que Guaçuí paga de dívidas, o que você faria com R$ 6 milhões?

Pra dar um exemplo mais claro, vou falar de R$ 1 milhão. A 13 anos atrás, com menos de R$ 1 milhão, na minha administração, numa circunferência de 500 metros, em volta da Praça da Matriz, nós construímos a Praça da Matriz, que ainda é um orgulho da cidade, reconstruímos o Colégio São Geraldo, que tinha 15 anos, caído, envergonhando a história de Guaçuí, resolvemos a questão da cratera do bairro da Fiat, que incomodava a 12 anos, dificultando a acessibilidade e colocando em risco a vida dos moradores, construímos a quadra do Colégio São Geraldinho e reformados a escola, ampliamos com mais salas o Jardim de Infância e reformamos toda a escola. Isso tudo com menos de R$ 1 milhão. Já tem um tempinho, mas olha quantas coisas faríamos com R$ 6 milhões.

 

Você acha que errou em alguma coisa no seu mandato, deixou de fazer alguma coisa? E o que ou quem você destacaria em seu mandato quando prefeito?

Muitas pessoas me ajudaram durante meu mandato. Tive uma equipe na qual tenho alegria de lembrar de todos. Mas se eu tivesse que destacar uma só – o que é uma situação difícil, eu não poderia deixar de destacar o Claudionor Esposte – o popular Bananinha, que foi meu secretário de Finanças, que teve o maior zelo pelas contas da minha administração, tanto que eu não respondo por um processo que me acuse do município ter perdido um centavo, não existe uma dívida. De todas essas dívidas que o município tem, não há um centavo de nosso mandato. Isso me ajudou muito. É o tipo de profissional que dá segurança para o administrador público. E o que eu não fiz e me arrependo – apesar de não ficar triste por isso – aconteceram em dois momentos. Em 2004, fui convidado pelo então governador Paulo Hartung para ocupar uma Secretaria de Estado e não ser candidato á reeleição. Se eu tivesse tomado a decisão de aceitar, a minha história política poderia ter sido melhor. Contudo, o que eu deveria ter feito, realmente, foi em 2006, ter renunciado ao mandato de prefeito, porque existia um processo para anular meus votos e eu senti que, a cada dia, crescia a vontade de uma minoria para que isso acontecesse, eu deveria ter renunciado, porque eu eliminaria o anseio das pessoas que queriam anular minha eleição. Teria renunciado e ser candidatoa deputado. Eu era presidente do Consórcio Caparaó, estava muito bem na região, com uma grande possibilidade de eleição. E cometi esse erro, para não ferir o interesse, de uma ou outra pessoa, e também por achar que meus amigos e eleitores não iam concordar comigo, eu não tomei essa decisão. E tem momentos que a gente precisa ter ousadia.

 

Falando em equipe, é verdade que você foi convidado para assumir uma secretaria no governo da Vera, e não aceitou?

Sim. Não aceitei, por não achar conveniente e também por saber que, em Guaçuí, tem muitas pessoas com mais qualificação que eu para tal missão. Além do mais, julgo que, para contribuir com uma administração, não é necessário que se esteja nomeado em cargo de confiança.

 

E o que você pensa sobre seu futuro político?

Em janeiro de 2018, a questão das minhas contas prescrevem os oitos anos. Então, não haverá nada para me afetar. E eu quero me preparar, quem sabe, diante da carência de lideranças políticas da região do Caparaó, em nível de Estado. Nós não temos um deputado da região do Caparaó na Assembleia Legislativa. Isso chega a ser vergonhoso pra nossa região. Então, vou tentar me preparar pra estar apto, em 2018, a enfrentar essa luta e representar nossa região. Eu gosto de política, eu sofro quando não participa de uma campanha e eu sinto que pode ser o momento para que eu volte á política, para que os eleitores me devolvam um mandato que me foi tirado, o que vai ser muito bom pra Guaçuí e pro Caparaó. Mas isso não vai ser uma obsessão. Vai ser uma coisa construída e só vai acontecer se for bem construída. Então, vamos com calma, tem tempo pra isso ainda e não é nem momento de isso ser colocado em pauta, mas já é momento, dentro do meu íntimo, eu refletir e chamar os eleitores da região para essa reflexão.

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