“O maior salto da agropecuária de nossa história deve acontecer em quatro ou cinco anos”

 

Em entrevista exclusiva, o secretário do Estado de Agricultura, Octaciano Neto, fala da renegociação das dívidas dos produtores e defende que o diagnóstico do Pedeag e os investimentos em pesquisa preparam o setor agropecuário para o maior salto de sua história.

Em meio ao maior desastre ambiental e pior crise hídrica da história do Espírito Santo, a Secretaria de Estado da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca (Seag) acaba de formular um diagnóstico do setor agropecuário do Estado. O Plano Estratégico da Agricultura Capixaba (Pedeag III) foi finalizado no final do mês passado. Produtores e especialistas ajudaram a definir o rumo das políticas públicas que objetivam catalisar o desenvolvimento rural.

Em entrevista exclusiva concedida à Associação dos Diários do Interior do Espírito Santo (ADI.ES), o secretário Octaciano Neto afirma que os direcionamentos obtidos com a ajuda dos seis mil participantes das oficinas do Pedeag serão responsáveis pelo maior salto tecnológico da história da agropecuária capixaba. Octaciano fala ainda da negociação em torno das dívidas dos produtores, bem como elenca o capital social do campo como mola do desenvolvimento do setor.

É bom ser agricultor hoje no Espírito Santo? O que o interior do nosso Estado tem que nos diferencia dos demais?

Nossa colonização nos trouxe uma cultura. Somos empreendedores e isso criou uma sinergia positiva. Ações foram tomadas ao longo dos anos e temos um instituto de pesquisa muito importante. O Incaper [Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural] desenvolveu uma série de estudos nos últimos anos. Pesquisas e inovações que, junto ao empreendedorismo, colocou a agricultura do Espírito Santo na vanguarda nacional. É o caso da cultura, que é base da nossa agricultura: o café. Nossa capacidade de empreendedorismo também pode ser vista pela nossa capacidade de irrigação. Somos o segundo Estado mais irrigado do Brasil. Aqui, 7% da nossa agricultura é de áreas irrigáveis. O cooperativismo também é forte. Temos cooperativas com quase 30 mil cooperados. Na história da Itália, por exemplo, uma região se desenvolveu mais que a outra não pelos investimentos, mas sim pelo que o pesquisador Robert Putnam chamou de capital social. Ou seja, a capacidade da sociedade de interagir, estabelecer relações cívicas e empreender individualmente. Temos muito isso aqui no nosso Estado.

A agricultura capixaba recebeu dos governos, ao longo da história, uma ajuda semelhante a que deu?

Existe forte atuação do governo ao longo da história. Tivemos um marco de desequilíbrio na época da erradicação dos cafezais [década de 60], travando a roda da agricultura. Logo depois, temos um vácuo com foco na indústria, mas o papel das politicas públicas no campo é retomado cerca de 15 anos depois. Existe outro marco em 2003. A Seag sempre conseguiu fazer politica agrícola, mas não tinha o papel de levar infraestrutura. Quando o governador Paulo Hartung assume, transforma a pasta em uma secretaria de desenvolvimento do interior. Mantemos nossa politica agrícola, a extensão rural e pesquisa do Incaper, o trabalho que o Idaf faz. Mas também atuamos no desenvolvimento do interior: pavimentação de estradas vicinais, telefonia, energia rural. Vejo esses dois marcos.

 

O senhor comenta da chegada dessa infraestrutura no campo nos últimos anos. Agora que isso está mais amadurecido, para onde vai a agricultura do Estado? O Pedeag foi feito lá em 2003 e, neste ano de 2015, também. O que mudou nesse meio tempo e qual o próximo passo?

As prioridades do primeiro Pedeag, que fizemos em 2003, são diferentes das prioridades de hoje. Muita coisa foi feita, por isso, deixou de ser demanda. O Pedeag apontou justamente essa mudança de prioridades. As novas prioridades giram em torno da sustentabilidade e inovação. Nessa pegada ambiental, temos duas faces de uma mesma moeda. De um lado, a estrutura verde – reflorestamento e proteção de nascentes. Do outro, a infraestrutura cinza, que é a construção de caixas secas e barragens. Já no pilar da inovação, acabamos de lançar um edital de pesquisa no valor de R$ 14 milhões.

 

As linhas desse edital atendem justamente o que foi posto como prioridade no Pedeag?

Exatamente. Não saiu um item de pesquisa que não estivesse entre as prioridades definidas no Pedeag. Precisamos motivar nossos pesquisadores em pesquisas que sejam importantes para o Espírito Santo. Quem definiu as prioridades foram os produtores, professores e essas seis mil pessoas que participaram do Pedeag. Não tenho dúvida que os resultados das pesquisas irão proporcionar o novo e maior salto de geração de conhecimento e inovação já vistos ao longo da história.

 

Faz pouco tempo que a Seag divulgou que os prejuízos do setor agrícola para esse ano de crise hídrica são estimados em R$ 1,5 bilhão. O problema é dobrado, já que os agricultores, além do prejuízo, têm dívidas. Como está a negociação das dívidas dos produtores?

A carteira de crédito agrícola cresceu muito nos últimos anos. Isso foi bom. Alavancou muito a nossa produção agropecuária. Mas quando temos perdas históricas, como as que tivemos com o excesso e depois falta de chuvas, o pagamento das parcelas do financiamento dos produtores fica dificultado. Deixaram de produzir/faturar e estão devendo. É o momento de renegociar. Pedimos a prorrogação das parcelas desse e do próximo ano, mas dependemos do Governo Federal, que arca com a equalização das dívidas com os bancos. E o Governo Federal teve déficit fiscal de R$ 120 bilhões de este ano.

 

De quanto é essa dívida e quais são os prognósticos de uma resolução junto ao Governo Federal?

A carteira de credito agrícola no Espírito Santo passa de R$ 8 bilhões. Isso corresponde a todo o dinheiro que os produtores pegaram nos bancos. Desse total, venceu neste ano de 2015, a quantia de R$ 1,7 bilhão. A carteira que vai vencer o ano que vem também deve ser próxima desse valor. Fizemos nosso dever de casa, estamos dialogando e levamos todos os documentos solicitados e apresentamos ao Ministério da Fazenda e da Agricultura. A bancada federal, estadual e federações ajudaram muito. Poucas vezes vi tanta gente unida em defesa de uma ação. Diria que estou ligeiramente confiante nessa prorrogação. Esperamos que nosso pedido entre na pauta da última reunião que o Conselho Monetário Nacional faz este ano, no dia 17 de dezembro. Caso não entre, deve ficar para primeira de 2016, que é prevista para final de janeiro ou inicio de fevereiro.

Tivemos recentemente o impacto da onda de rejeitos das barragens da mineradora Samarco no Rio Doce. Quais foram os prejuízos da agricultura? Foi o maior impacto na pesca da história de nosso Estado?

É o maior desastre ambiental do Brasil. Praticamente acabou o que havia de peixe ao longo do Rio Doce. Os produtores, ao longo da calha, se pegar um quilometro de cada lado, representam 1,14% da agricultura do Espírito Santo. Não chega a prejudicar a agricultura do Estado, mas na vida desses cerca de 400 produtores, estamos falando de perdas que podem envolver tudo que eles têm. A empresa tem feito o cadastro dos pescadores da calha e de Regência. A postura da empresa não pode ser outra que não seja a de garantir o rendimento financeiro dos pescadores até o momento que for possível voltar a pescar.

 

Mas os repasses para os pescadores já começaram?

Não. O mapeamento esta sendo concluído. Esse é um assunto prioritário.

 

O senhor está fechando um primeiro ano de trabalho. A Seag passou pelo diagnóstico do Pedeag, bem como pelo maior desastre ambiental e pior seca da história do Estado. O senhor esperava um ano tão movimentado?

O ano foi muito duro para os produtores e pescadores. Um dos piores anos de nossa agropecuária. Mas é importante destacar que, se essa crise hídrica fosse há doze anos, teria tido impacto ainda maior. Os pacotes tecnológicos já implementados no campo foram importantes. Os produtores fizeram barragens nesses anos, temos 32 mil barragens. Se a agropecuária passou por esse teste de fogo em 2015, ela pode, com os investimentos que são necessários em pesquisa e segurança hídrica, estar preparada para dar um grande salto. O maior salto da agropecuária de nossa história deve acontecer em quatro ou cinco anos.

 

Foto Octaciano entrevista (Divulgação)

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“Quem definiu as prioridades foram os produtores, professores e essas seis mil pessoas que participaram do Pedeag”

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