O secretário da Casa Civil, Paulo Roberto, participa diretamente da gestão governamental. Pela mesa de seu gabinete passam deputados, prefeitos, bem como lideranças comunitárias e sindicais que tangem o poder público. O relacionamento com esses pares fez parte de sua rotina e ele teve que dialogar bastante frente ao desafio da adequação orçamentária que foi implementada logo na chegada do novo governo.

Apesar de classificar o ano de 2015 como “dificílimo”, o ex-deputado estadual avalia que a colaboração das lideranças e Poderes na efetivação das politicas de austeridade foi positiva e conseguiu enfrentar o desafio de terminar este exercício com as contas em dia. Além disso, afirma que organização fiscal realizada na administração Estadual já é exemplo nacional.

O hoje secretário foi o parlamentar líder da oposição na última legislatura da Assembleia e conta os detalhes do processo que culminou com a revisão do orçamento realizado este ano. Leia entrevista completa:

O senhor foi líder da oposição na última legislatura da Assembleia Legislativa. O parlamento teve uma mudança de comportamento ao longo de 2014 que culminou na aprovação do orçamento 2015 já organizado pelo governo que iniciou os trabalhos esse ano. Quando esse processo começou na Assembleia?

Já havia sinais na prática do antigo governo que indicavam um cisma na relação. Dentro da Assembleia Legislativa, o espaço para que as discussões da eleição 2014 foi abertoexatamente quando o então deputado Sergio Borges virou conselheiro e houve disputa pela vaga que ficou aberta na Comissão de Finanças. Eu era suplente pelo PMDB e pleiteei a vaga. A deputada Luzia Toledo, líder peemedebista, acatou o pedido e solicitou minha inclusão em plenário. Naquele momento, houve grande racha na Assembleia. Ficou latente quem a cúpula do governo de plantão confiava já antevendo a próxima eleição. A imprensa retratou o debate que tivemos na recomposição da Comissão, mas não retratou o que ocorreu no gabinete do presidente Theodorico Ferraço (DEM) naquele momento.

O que aconteceu?

Articulamos um grupo de quatro deputados para Luzia ser a nova presidente da Comissão de Finanças. Isso em novembro de 2013. Até então, Luzia era governista. Estávamos nessa reunião dos membros da Comissão de Finanças com Ferraço. Entra doutor Elcio Alvares, então líder de governo, pede a palavra e fala de forma taxativa: “O governo não aceita Luzia Toledo na presidência da Comissão de Finanças”. Dito isso, a pressão de Luzia subiu e ela teve um mal estar. Tiveram que chamar um paramédico da Assembleia. Ali foi o divisor de águas, dali para frente a Assembleia virou outra. O nome de DaryPagung (PRP) acabou sendo o consenso nessa situação, assim ele virou presidente.

Já houve acirramentos na aprovação do orçamento de 2014 que se seguiu?

Dali para frente tinha o orçamento 2014 para relatar, último do mandato do governo anterior, que havia feito compromisso público pelo hospital de Cariacica e não tinha comprado sequer o terreno. A Assembleia tinha que sinalizar pelo cumprimento desse compromisso. Mudamos o orçamento para bancar recursos para o hospital e o Plenário bancou. No final de 2013, já fazíamos na Comissão o debate que, do ponto de vista fiscal, o governo entrava em uma rota perigosa. Entrei na comissão de finanças fazendo discurso de que os royalties e participações especiais estavam sendo usadas para custeio.Em fevereiro de 2014, saiu o estudo que denunciava com profundidade essa questão. Tivemos papel decisivo na Comissão no orçamento 2015. Fomos procrastinando, obstruindo e não votamos. Os aliados do governo anterior forçaram de tudo para votar aquele orçamento com 1,35 bilhão a mais de uma receita fictícia.

O senhor foi articulador ativo de todo esse processo na Assembleia. O senhor acredita que essa naturalidade em conversar com os pares que o conduziu para cadeira da Casa Civil?

Além da relação de política e de confiança que tenho com o governador faz anos, o debate que travei na Assembleia no final de 2013, ao longo de 2014 e depois da eleiçãoajudou para que 34 projetos, que comprometeriam as execuções orçamentárias do governo que iniciava,fossem obstruídos.Além disso, a relação que tinha com os deputados também é um fator importante. Era preciso que alguém aqui na Casa Civil não fizesse apenas o trabalho político de fazer relação de conversa com deputados, atendendo aos pleitos e emendas. Mas não bastava isso neste ano de 2015, precisava mais. Precisava convencer os deputados do esforço do ajuste. Meu papel ficou focado na Assembleia, que era onde precisava haver compreensão dos parlamentares que saíram e dos que chegavam. Passava a semana toda cuidando para que o ano de 2015 não fosse comprometido na questão orçamentária. Não votamos o orçamento do ano passado, assim conseguimos retirar despesas que seriam realizadas sem lastro na receita. Em 2015, a Assembleia nos ajudou muito.

Sem esse ajuste permitido pela movimentação da Assembleia o governo teria uma dificuldade muito maior que a atual?

Sim. Certamente estaríamos fechando o ano pior do que o Rio de Janeiro está fechando: atrasando salário, parcelando salário, devendo fornecedores. Com a crise nacional política, econômica e ética, certamente não haveria a cooperação de grande parte do funcionalismo como estamos tendo. Em quadro de caos, iria passar uma imagem de uma gestão ruim, por mais esforço que se fizesse. Ou teríamos até que tomar decisões amargas em 2015 que criaria situação difícil com a Assembleia.

E qual foi o principal desafio desse ano?

Já tínhamos a situação do ajuste fiscal e dívidas para pagar em curto prazo, principalmente na área da saúde. Esse era um ponto crucial que precisava ser resolvido imediatamente. E outra coisa que não era esperada ou sequer foi debatida na campanha, que é a crise hídrica. Isso em plena crise ética e econômica que afetou o país como um todo. No final do ano, vem uma crise da lama com o desastre do Rio Doce. O governo foi proativo. E quando imaginávamos que o ano tinha acabado, veio o zika vírus que atinge todo o Brasil. Talvez não tenha tido um ano na história em que tantos desafios foram colocados. Lá atrás tinha problema do crime organizado.Foi um ano desafiador do ponto de vista da gestão pública.Tivemos capacidade de fazer o enfrentamento por estarmos preparados.Conseguimos enfrentar um ano dificílimo. O país todo está falando do Espírito Santo. Está sendo citado como exemplo.

O senhor acha que o governo está preparado para enfrentar os desafios esperados para 2016? É necessário mudar algo na máquina pública para maximizar a capacidade de recuperação pós-crise?

O Brasil precisa voltar a ter confiança. Temos uma empresa espanhola que está querendo fazer um investimento de bilhão entre Linhares e São Mateus, mas aguardam a melhora da economia. Os investidores estão retraídos, a economia cai.Cai junto o consumo das famílias, cai arrecadação de governos e prefeituras. Mas o Estado está organizado e sabendo do que pode vir. Estamos preparados. Mesmo com as nuvens colocadas para 2016, nosso timoneiro sabe organizar o barco. Nas condições normais de temperatura e pressão, 2016 está contratado. Precisamos de uma luz nessa crise econômica. Tenho certeza que sairemos na frente quando essa crise acabar.

É um ano complicado para Estado e municípios. Como tem sido o diálogo com os prefeitos para auxiliar os municípios nesse momento difícil?

Os prefeitos, assim como o antigo governo, estavam vivendo como novos ricos. Tivemos prefeitos que foram exceções nisso. A imprensa dizia que havia pessimismo em excesso no novo governo e que o discurso era tática para não ter que fazer concessões no primeiro ano. Prefeitos e deputados chegavam aqui com essa percepção. Mas hoje essa conversa mudou completamente. Demos o exemplo. O Estado não cortou na carne, cortou no osso. Até nosso consumo de água diminuiu. Todos terão que se adequar a nova realidade. O governador disse aos prefeitos: quem virar o ano de 2015 pagando a folha e os prestadores de serviço termina o ano de forma vitoriosa e entra em 2016 para colocar os planos de voo eleitorais para fora.

O senhor vai disputar a próxima eleição? Será candidato a prefeito de São Mateus?

Hoje estou no governo como secretário da Casa Civil, meu foco é esse.Meu nome já foi vinculado em alguns veículos como pré-candidato. Não posso dizer que dessa água não beberei, sou político do município. Mas com a água que está sendo servida hoje em São Matheus, não beberei [faz referência à água salgada do mar distribuída na cidade pelo momento de escassez].

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