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PRESIDENTE DA FINDES DEFENDE INTEGRAÇÃO DAS ATIVIDADES INDUSTRIAIS NO ESPÍRITO SANTO E PREVÊ QUE NO FUTURO OS PORTOS DO INTERIOR SERÃO MAIS IMPORTANTES QUE O DA CAPITAL

 

O primeiro semestre apresentou panorama peculiar para indústria capixaba. A produção física industrial é a melhor do país, mas convive com demissões. Já são mais de cinco mil postos de trabalho fechados. Em meio a essa dicotomia, o presidente da Federação das Indústrias do Espírito Santo, Marcos Guerra, avalia que a situação do Espírito Santo exige otimismo e moderação. Não por acaso. Apesar do número consolidado positivo, o resultado não está azul em todos os setores.

 

Por um lado, à atividade extrativa alcançou produção 22,1% maior entre janeiro e julho. O desempenho foi puxado pelas inaugurações da oitava Usina da Vale e quarta usina da Samarco. A metalurgia também cresceu 30,2% motivada pela reativação do terceiro alto-forno da Arcelor Mittal. No interior plantas também entraram em operação. A Marcolopo/Voltare, Estaleiro Jurong, Bagó, Itatiaia e Bertolini são alguns exemplos. Porém, áreas tradicionais, como a indústria de alimentos (-9% no período) e de minerais não metálicos (-4%), são o outro lado dos números positivos.

 

Além disso, é preciso cautela para manejar a produção em tempos de retração de consumo. O próprio Marcos Guerra avalia que o resultado ao final do ano deve ficar na casa dos 10%, número menor que os atuais 14,9%. Na verdade, estimativas já indicam que a produção das indústrias capixabas está 20% abaixo de sua capacidade máxima.  Para enfrentar a crise nacional, o presidente da Findes defende cortes no setor público e empreendedorismo de empresários e prefeituras.

 

Marcos Guerra acredita que o Estado tem condições de “sair na frente” após o período de recessão e levanta a bandeira da integração tendo em vista as proporções do Espírito Santo. “Olha, na verdade, entendo que não podemos falar em interior no Espírito Santo. Interior tem Minas Gerais, Pará, Mato Grosso. Aqui de vinte em vinte minutos chegamos numa cidade. Não temos interior. Temos que ter um Estado totalmente integrado”, disse, prevendo que, em médio prazo, os portos do interior serão mais importantes que o da capital.

 

Leia entrevista completa:

 

O senhor é um presidente da Findes que veio do interior. Como o senhor tem levado a Findes para o interior?

A Federação nunca tinha tido um presidente de fora da Grande Vitória em seus 55 anos de história. Trouxemos novos associados e fortalecemos nossos Conselhos Regionais, dando certa autonomia em assuntos ligados a representatividade da Findes na região. Os investimentos foram discutidos em cada local. Passamos a ouvir nosso industrial de Vitória e interior, que passaram a ser protagonistas das ações da presidência da Findes.

 

A interiorização dos grandes projetos é o norte mais viável? O interior do Estado está pronto para receber essas plantas?

Ninguém quer mais colocar indústrias dentro da cidade É muito mais barato e mais interessante, para ser uma empresa cidadã, ter uma linha de ônibus para levar seu funcionário que estar dentro da cidade. Duas décadas atrás os grandes investimentos eram feitos na Grande Vitória. Há cerca de 10 anos o mapa da indústria vem se modificando. Temos polos industriais fora da Grande Vitória. Quando o industrial chega não vem preocupado em estar na região metropolitana, tampouco olha só incentivos. Observa a logística, se existe gente para trabalhar, segurança jurídica. A formação e qualificação profissional são importantes. Sempre procuramos saber da necessidade das novas plantas com antecedência, assim trabalhamos os profissionais das regiões para aproveitar as oportunidades.

 

Mas todos os municípios do Estado tem vocação industrial?

Quando cheguei, o conceito era de que 29 municípios tinham vocação industrial. Mas o que é vocação industrial? É onde tem indústria? Todo município tem vocação industrial, tem uma pessoa que faz obra. Tem uma padaria e padaria é indústria. Mas, por exemplo, vamos supor que Marilândia não tivesse vocação industrial. Pancas também não. Ambas ficam a menos de meia hora de Colatina. A indústria pode estar em Colatina e a estrutura de entorno nas outras cidades.

 

Mas e os gargalos no interior. Os problemas do interior são os mesmos da grande Vitória?

Na Grande Vitória temos excelente estrutura para transporte de minério e certa deficiência em portos públicos. Além disso, percebemos que as duas pontas do Estado tem trabalhado com questões dos portos públicos. De um lado Presidente Kennedy, do outro Aracruz (Portocel e Imatame) e Linhares (Manabi). O futuro são essas duas pontas engolirem o Porto de Vitória. De médio para longo prazo. Olha, na verdade, entendo que não podemos falar em interior no Espírito Santo. Interior tem Minas Gerais, Pará, Mato Grosso. Aqui de vinte em vinte minutos chegamos numa cidade. Não temos interior. Temos que ter um Estado totalmente integrado. Se você perguntar aos 78 municípios, todos querem ter um aeroporto. Mas não funciona, tem que ser viável. Temos que pensar em um bom aeroporto no Norte e um bom no Sul. Isso funciona, são pontos estratégicos. É pensar o Estado de forma integrada.

 

E os municípios, o que devem fazer nesse tempo de crise e baixa arrecadação?

Os municípios tem que olhar para fora, para o conceito de região. Tem que vibrar quando o município vizinho está bem, ou recebe uma indústria. Acredito que as cidades tem que ter uma cabeça mais empreendedora. Para mim, secretarias municipais de agricultura, desenvolvimento e meio-ambiente devem trabalhar juntas para facilitar o empreendedorismo.

 

As indústrias são as maiores pagadoras de impostos do Espírito Santo? Elas recebem políticas adequadas ao que geram suas atividades?

Proporcionalmente o Espírito Santo é o mais industrializado do país. 39% do PIB [Produto Interno Bruto] vem da indústria. E somos um dos poucos Estados com superávit. Aproximadamente só 36% retornam do total que pagamos de impostos. Isso é uma questão de legislação. Se todo o tributo que é pago ficasse aqui seriamos um pequeno país totalmente independente.

 

Vivemos uma dicotomia no Espírito Santo. Nossa indústria cresce em um ano em que a maioria dos Estados tem números negativos, mas existem demissões.

Fechamos julho com um crescimento de 14,9%. O maior do Brasil. Mais que o dobro do segundo colocado. Isso pelos novos projetos que entraram em funcionamento. Isso não vai continuar tão alto assim. Podemos fechar o ano talvez com dois dígitos, cerca de 10%. O Brasil pode fechar em oito pontos negativos. Vamos estar na frente em matéria de produção física industrial. A indústria nacional trabalhou entre 18% e 20% de ociosidade no ano passado. Como não existe perspectiva econômica favorável, esse numero vai ser reduzido do quadro de trabalho. Se continuar assim, vamos chegar a meados do ano que vem com uma baixa de aproximadamente 18% no quadro de funcionários da indústria nacional. É preocupante.

 

De um lado temos bons números de produção no Espírito Santo, do outro já são mais de cinco mil demissões na indústria capixaba. Como o senhor avalia esse momento, temos que ficar felizes, preocupados, os dois? Vamos sair na frente depois da crise?

Aqui no Estado temos que ser otimistas moderados. A meu ver, o epicentro da crise será no final de 2016 começo de 2017. Os piores momentos da crise serão daqui para os próximos doze meses, mas acredito que vamos estar na vanguarda. Estaremos melhor que os outros Estados. Nosso índice de endividamento do Estado, percentualmente, é o menor do país. Disparado. É verdade que vários dos nossos setores tradicionais enfrentam desafios: vestuário, metalomecânico, indústria moveleira, alimentos e bebidas... Mas temos vantagens. Temos essas novas plantas e investimentos, além de um Estado organizado e alinhado para se sair bem nessa crise que o Brasil enfrenta. Estamos na frente. 

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