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PRESIDENTE DA SELITA ACREDITA EM SALTO DE PRODUTIVIDADE E REVELA QUE O SETOR DE LATICÍNIOS INICIOU DIÁLOGO COM O GOVERNO DO ESTADO PARA EQUILIBRAR A CARGA TRIBUTÁRIA DO LEITE QUE SAI E CHEGA AO ESPÍRITO SANTO

 

A modernização de toda cadeia da produção de leite é defendida pelas cooperativas de laticínios. Com uma atividade profissional com raízes sociais históricas, o desafio é fazer com que os pequenos e médios produtores acompanhem o salto das indústrias. O presidente da Cooperativa de Laticínios Selita, Rubens Moreira, vai além. Calcula ser possível triplicar a produção de leite no Espírito Santo em cinco anos.

 

Apesar dos inegáveis prejuízos contabilizados pela seca que atingiu todo o Estado, Rubens estima que o momento é “oportuno para refinar os projetos”, tanto que a cooperativa do Sul do Estado se prepara para mudar de endereço. “Estamos adquirindo uma área de 1,2 milhão de metros quadrados para tirar a Selita de dentro da cidade”, planeja.

 

A entrevista foi concedida por Rubens na última quarta-feira (15), mesmo dia em que as cooperativas de laticínios iniciaram diálogo com o Governo do Estado para que uma nova fórmula de tributos sobre o leite equilibre a balança do que entre e sai do Espírito Santo. “Quando mando para o Rio de Janeiro pago absurdo de carga tributária. Já o Rio, quando manda para cá, paga menos da metade”, contabiliza.

 

Leia entrevista completa:

 

Ainda é um bom negócio produzir leite, ou o problema é tentar produzir leite nos dias de hoje como fazíamos décadas atrás?

Essa é a grande questão. Se você produzir leite com eficiência, é um bom negócio. Temos que evoluir e ter produtividade. Hoje temos pastagens modernas, animais funcionais. Nossa forma de trabalhar com leite precisa mudar. Mas, é um bom negócio!

 

Como ajudar o produtor a dar esse salto?

Isso já está acontecendo. O Sebrae [Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas] tem dado essa assistência para quem quer produzir melhor e fazer um planejamento. É inacreditável que ainda existam produtores que não pensem em qualidade. Se o produto é de qualidade terá bom preço. Mas o primeiro passo está sendo dado. Existe assistência ao produtor por meio desse convênio com o Sebrae. Só a Selita possui 560 produtores sendo assistidos. Estamos no segundo ano, já temos resultados. O pequeno produtor tem que virar um empresário rural.

 

Temos um leite de qualidade no Espírito Santo?

Temos problema na saúde animal e na captação. As cooperativas estão mais exigentes. O próprio Ministério da Agricultura tem, por meio de normativas, exigido que o leite não tenha células somáticas, ou impurezas. Mas isso é uma coisa que tem que vir de nós. O Brasil tem tudo para se tornar exportador de leite, pois tem extensão.  O país já produz mais que consome, mas podemos produzir muito mais.

 

Então esse salto de modernização também é dever de casa de outros estados?

Goiás e São Paulo estão melhores. Estão melhorando também na região Sul do Brasil. Eles querem ser os maiores produtores de leite do Brasil – hoje é Minas Gerais. No Espírito Santo precisamos melhorar a produtividade e começar a fazer inserção de tecnologia junto ao pequeno produtor. Ou o pequeno produtor começa a produzir leite ou sai do negócio. A indústria e as cooperativas não podem perder o compasso e tentar carregar os que não querem produzir. Por isso fornecemos toda assistência para quem quer produzir.

 

A Selita foi fundada em 1938 e já passou por diversos ciclos econômicos. O que é diferente nas dificuldades enfrentadas hoje?

Passamos por momento impar no Estado, especialmente no Sul. Sofremos um déficit hídrico em 2014 e maio de 2015 que foi inigualável. Foram dois anos diferentes. Em 2013, chuva e bons preços nos produtos. Já 2014, um déficit hídrico e nunca tivemos tanto excesso de leite no mundo.

 

E quanto tempo vai demorar para recuperar as perdas da estiagem no Espírito Santo?

No Sul do Estado uns três anos. Na década de noventa tivemos prejuízo grande, mas esse foi maior. Tivemos seca e praga da lagarta. Ela come a folha e raiz. Mata vegetação. Por exemplo, 70% das áreas do município de Presidente Kennedy [Sul do Estado] precisam ser aradas, corrigidas, para produzir outra vez. É uma coisa muito grande. Para preparar um alqueire de terra são pelo menos seis meses sem utiliza-la e um investimento médio de R$ 15 mil. Imagina isso em cinco mil alqueires de terra só em Presidente Kennedy. São milhões. Fora a perda do rebanho. Existe quem tenha perdido todo o gado. Na Selita, temos uma média de 200 produtores que pararam de mandar leite por causa da seca.

 

Falamos em modernização com produtores que ainda amargam os prejuízos da seca. Tendo em vista essa circunstância, quanto tempo será necessário para realizar esse salto de produção de leite?

Acho que se todas as indústrias de laticínios, as cooperativas, o Sebrae e Incaper [Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural] trabalharem nisso integrados, levamos dez anos para mudar essa estrutura. Na verdade houve uma grande valorização da terra e do produto nem tanto. Do que o produtor tem medo? De ir a um banco pegar dinheiro, investir, mas não tirar para pagar. O problema não é que existam juros altos. O problema é a coragem de investir, pois existe risco de perder a propriedade se não produzir bem.

 

Mas qual é o potencial do Espírito Santo na indústria de laticínios?

Produzimos uma faixa de 1,3 milhão de litros de leite por dia, triplicar isso não é uma tarefa difícil. Seria possível triplicar nossa produção de leite em cinco anos. Agora, não somente os pequenos que devem produzir mais e melhor. Os produtores médios devem fazer o mesmo. Temos uma média por vaca de menos de 5 litros/dia. Avalio que 12 litros seria uma boa média.

 

Se triplicarmos nossa produção teremos para onde mandar o leite? O Espírito Santo já é exportador de leite?

O consumo de leite no Brasil em dez anos aumentou de 127 para 178 litros per capta. Mas não pense que foi mais leite que beberam, foi mais queijo que comeram.  O consumidor ficou mais exigente. Até pouco tempo você não ouvia falar em produtos sem lactose. Além disso, o Brasil conseguiu liberação de cotas de leite com a União Europeia. Essa semana a Ministra [da Agricultura, Pecuária e Abastecimento], Kátia Abreu, conseguiu abrir nossa exportação para Rússia. Parece que também está bem avançado para conseguir o mesmo na China. Hoje o Espírito Santo tem condição de industrializar todo o seu leite. Temos pequeno excedente de cerca de 300 mil litros/dia. Mandamos e recebemos muito leite. Temos uma diferença tributaria grande. Por exemplo, quando mando para o Rio de Janeiro, pago absurdo de carga tributária. Já o Rio, quando manda para cá, paga menos da metade.

 

Mas algo tem sido feito para mudar isso?

Sentamos hoje [15/09] para discutir isso com o governo. Atualmente o ICMS [Imposto sobre Operações relativas à Circulação de Mercadorias] está nos tirando do Rio de Janeiro. Para mandar eu pago, no leite, 11,7%. Eles não pagam nada. Quando eu mando para lá já carrego o caminhão com o imposto pago. Já eles mandam para o comerciante pagar aqui. Mas o comerciante se for do simples, por exemplo, tem regime especial diferenciado. Além disso, pago 7% para trazer o leite de Minas Gerais, enquanto eles pagam 1% para levar. Estamos conversando com o governo, que está sensível a nossa causa. O atual governador nos ajudou muito nos seus mandatos anteriores.

 

O senhor avalia que o momento é de investir ou de esperar?

Temos uma crise política e hídrica no Brasil. Mas acredito que é um momento oportuno para refinar os projetos.  Estamos adquirindo uma área de 1,2 milhão de metros quadrados para tirar a Selita de dentro da cidade de Cachoeiro de Itapemirim. Estamos lançando produtos novos. Não sinto pessimismo das empresas de laticínios. Estamos todos atentos, isso é bom. Acho que o produtor de leite passou momentos difíceis, mas hoje vale à pena produzir. Vejo uma grande oportunidade.

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