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PRESIDENTE DA COOPERATIVA VENEZA AFIRMA QUE MELHORIA DA PRODUTIVIDADE NAS PROPRIEDADES DO ESPÍRITO SANTO É FUNDAMENTAL PARA SOBREVIVÊNCIA DO SETOR

 

O setor de laticínios no Espírito Santo tenta se ajustar a cenários que não esperava. De um lado a crise hídrica, do outro a crise econômica. “Neste ano a produção caiu muito por conta da questão climática. Justamente a queda de produção minimizou a queda de consumo. Uma coisa compensou a outra” avalia o presidente da Cooperativa de Laticínios Veneza, José Carnieli. “A tendência da produção para o final do ano é crescer. Aí provavelmente vamos sentir mais essa queda de consumo”, complementa.

 

A baixa produção nas propriedades que hoje permite que não exista desperdício de matéria prima em tempos de retração de consumo é uma solução passageira. O desafio histórico do setor é outro e rema justamente na necessidade de que cada produtor produza mais e melhor. “Se não melhorarmos a produtividade do leite no Estado, as cooperativas e as empresas privadas aqui instaladas terão muita dificuldade de sobrevivência. A maioria dos produtores continua produzindo leite como no passado. A atividade mudou, o mundo mudou. Se nós não mudarmos, qual a tendência? Ficarmos para trás, ou até desaparecer”, pontua Carnieli.

 

Leia entrevista completa:

 

O que incomoda mais no meio rural, a retração financeira ou a estiagem do começo do ano?

Vivemos situação particular no Espírito Santo pela questão hídrica e falta de chuvas. No meio rural isso incomoda muito mais que a crise política e econômica que está instituída no país. O esvaziamento de nossas reservas hídricas tem sido grande dificuldade no meio rural. Quanto a crise do país, o que mais afeta é a dificuldade de renovação de crédito bancário.

 

Como as cooperativas como a Veneza tem sentido a atual conjuntura econômica?

Não existe dificuldade de comercialização do leite no setor de matéria primária para indústria no Estado. Mas, quando isso chega à indústria, ela transforma essa matéria prima para comercializar esse produto, aí existe dificuldade.  Temos uma retração de consumo de leite e derivados.

 

Já foi possível contabilizar o quanto o setor foi afetado?

No Espírito Santo temos uma produção do leite muito empírica e tradicional, sofremos variação forte de produção. Neste ano a produção caiu muito por conta da questão climática. Justamente a queda de produção minimizou a queda de consumo. Uma coisa compensou a outra, minimizou a outra. Mas, se nossa produção fosse linear, teríamos muita dificuldade. A tendência da produção para o final do ano é crescer. Aí provavelmente vamos sentir mais essa queda de consumo.

 

Como vocês estão se preparando para isso?

Em outras atividades é possível paralisar a compra da matéria prima. No leite não. A vaca produz leite todo dia. A indústria tem que receber todo dia. Para estocar o leite de forma mais durável, podemos transformar o leite fluido em leite em pó. Duas unidades fazem isso no Estado, a Selita (no Sul) e Damare (no Norte). Mas existe um limite para essa produção. A Veneza tem conseguido administrar essa queda de consumo. Nossa expectativa é que para safra vindoura de 2015/2016 possamos equacionar isso para que os produtores não tenham tanto prejuízo como já estão tendo.

 

Uma das maneiras de garantir a compra em tempos de crise e chegar com produtos mais em conta nas prateleiras do supermercado. Vocês conseguem fazer isso, o que impede que um produto local tenha menos custo que os outros?

Existe quem diga que essa dificuldade é tributária, ou de gestão. Acho até que podem existir vieses nesse sentido. Mas avalio que a grande dificuldade está no custo da produção da matéria prima. Nosso leite é produzido de forma tradicional, com pouco profissionalismo e baixa escala de produção. Não temos grandes produtores de leite no Estado. Nossa região é de pequenos produtores. Uma coisa é captar 100 litros de leite em 100 diferentes propriedades. Outra é captar o mesmo número de litros de dez propriedades. Esse fator pesa muito na produção de leite capixaba. Se insistirmos nisso, daqui a pouco nossa cooperativa vai deixar de existir. A competitividade nos leva a rever esses custos. No mundo de hoje isso é insustentável. Esse é um custo que o consumidor não quer pagar.

 

Vocês já iniciaram essa mudança?

Temos intensificado esse processo de mudança junto com as demais cooperativas do Estado. Até os laticínios privados tem trabalho voltado para melhorar produtividade. Estamos bem encaminhados e temos parceiros. O Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), o próprio Sescop (Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo). Temos um novo governo e estamos discutindo um projeto para unificar toda assistência técnica no Estado. Precisamos ajudar o produtor a trabalhar de maneira mais profissional as atividades que ele desenvolve e, consequentemente, melhorar a produtividade. O ideal seria uma média de 10 litros vaca. A média hoje gira em torno de 3 litros/dia.

 

E quais são as dificuldades?

Nesse momento, falta água. Não se melhora a produção sem água. Mão de obra também está difícil. Dentro do agronegócio do Estado, a atividade preponderante não é leite, é café.  No Norte temos a pimenta do reino. Isso acaba respingando no leite. A tendência da mão de obra é preferir essas atividades ao invés do leite. Regra geral, você tem que trabalhar no leite sete dias por semana, nas outras culturas, cinco dias.

 

Essa mudança na maneira de produzir dos produtores é o grande desafio do setor de laticínios do Espírito Santo na próxima década?

Sinceramente, respeito quem pensa diferente. Mas, se não melhorarmos a produtividade do leite no Estado, as cooperativas e as empresas privadas aqui instaladas terão muita dificuldade de sobrevivência. A maioria dos produtores continua produzindo leite como no passado. A atividade mudou, o mundo mudou. Se nós não mudarmos, qual a tendência?  Ficarmos para trás, ou até desaparecer. Esse é o grande esforço que temos que empreender. Precisamos trazer os produtores para dentro desse projeto. Essa é uma questão de sobrevivência de todos.

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