Blog do João Moraes

Ofídio

25/02/2017 00:00:00

João Moraes

Ela era roliça,meio esbranquiçada e estava encaracolada dentro de um vidro de balas que ja havia perdido a tampa. Fechando o vidro, um pires encardido como o vidro de bala. Parecia um bichinho de laboratório conservado em formol,mas o líquido em questão tinha uma química mais simples. Era cachaça dentro do vidro e dentro dela uma jararacade mais de metro. A cabeça da bicha ainda apresentava as marcas de pauladas desferidas há muito. Os olhos saltados denunciavam a opressão do porrete, bem como a...

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Memória Inundada

23/02/2017 08:00:00

João Moraes

A ponte suspensa de cabo de aço e ripas de metro e meio atravessada sobre a água brava balançava muito. Menino de algumas convicções religiosas em esquizofrênica simbiose com um racionalismo ateu reluzente e desproporcional feito crista de galo garnisé, supliquei ao pai celeste que me salvasse o corpo e fizesse da alma o que bem entendesse. Mas, depois dessa ponte, onde, óbvio, meu pedido foi atendido, embora deus ainda não tenha revelado o que fará de meu pobre espírito, muitas outras pontes se...

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Música.

16/02/2017 08:00:00

João Moraes

Era uma velha vitrola Philips, portátil e que pegava seis pilhas grandes. O primeiro disco, um Frank Sinatra com direito a My Way.  Entre os primeiros Lps adquiridos um Martinho da Vila, Paulinho da Viola e Paulo Diniz. Compactos: Maria Bethânea, Caetano e um vinil de brinde da revista Pop com Clapton e Hendrix. No mesmo ano Sergio Sampaio trouxe do Rio de Janeiro O Expresso 2222 do Gil. E até hoje eu lembro meu espanto quando ouvi: “Se oriente rapaz, pela possibilidade de ir pro Japão. Num Carg...

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O Bar do João

09/02/2017 08:00:00

João Moraes

Pé de porco, paio, carne seca, torresmo, costelinha, jiló, chouriço, língua de boi ao molho madeira e cogumelos. O que você quer? Lembro do natal de minha infância, íamos até perto da velha estação, as ruas fervilhando e o bonecão das casas Lealtex, balançando os braços e anunciando as promoções do reclame e me metendo medo; a paradinha interminável na Vencionex para conversar com o velho amigo Ernanes, gente esbarrando, comadres a muito desencontradas, verificação frenética de bancas de tecido...

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Com gripe ou sem gripe o porco é da lata.

02/02/2017 08:00:00

João Moraes

Quem já tinha idade para entender as coisas nos anos 80, mais precisamente em 87, há de se lembrar da história do navio pesqueiro chinês Foo Lang III, que mais tarde envergou a bandeira do Panamá sob o sugestivo nome de Solana Star. Qual história¿ A história das 20 mil latas de maconha que foram jogadas no mar e empestearam as praias entre o litoral do Espírito Santo e Santa Catarina.  Pois bem, o conteúdo das latas acabou se tornando famoso pela qualidade de destino e virou até sinônimo de coi...

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As Ferramentas do Álvaro

26/01/2017 08:00:00

João Moraes

Eu vou logo avisando; aprendi a nadar no rio. Primeiro num canalzinho lá na Ilha da Luz onde também aprendi a bater peneira para pegar camarão. Eu tinha cinco anos e com seis já atravessava a língua grossa dó rio Itapemirim observando as distâncias para traçar uma diagonal perfeita que me levasse até onde os mais velhos mergulhavam às cegas para pegar carás, camarões e lagostas. Bichos que vivem nas locas sucumbidas sob a água em movimento. Mas nunca aprendi a remar muito bem. Nosso bote da famí...

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Montanhas

19/01/2017 08:00:00

João Moraes

Muita coisa tem saído nos jornais sobre a região do Caparaó. Falam de valorização imobiliária, de cachoeiras e matas; de estrada real, paisagens exuberantes e frio civilizador. É, falam muito de tudo, mas não contam sobre a gente que lá vive, seus costumes cotidianos e o áspero veludo da índole montanhesa. A fila quieta dos dias cadencia a alma generosa dos caparaoenses, talvez por viverem onde nasce boa parte da água que rega o Espírito Santo e aplaca a sequidão das bocas e dos poros da terra. ...

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A de 37 foi Pior

12/01/2017 08:00:00

João Moraes

Quantas vezes em minha vida ouvi minha avó e meu pai afirmarem: a de 37 foi muito pior. Caiu uma tromba d’água lá nas cabeceiras e a água subiu muito rápido de madrugada. Pegou todo mundo de surpresa. Depois baixou e subiu novamente. A de 37 foi muito pior. As enchentes do Itapemirim sempre foram dramáticas. Lembro bem de uma em que dois cavalos estavam em uma ilha em frente à minha casa. O dono tentou resgatar os coitados, mas a água já estava muito forte e os animais titubeavam, temendo entra...

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Ficar com certeza, maluco beleza.

05/01/2017 08:00:00

João Moraes

Todo município do interior tem seus malucos folclóricos. Docemente adotados pela comunidade. Eles conferem subjetividade à personalidade brusca das cidades; quebram ao meio, na paisagem monótona, a igualdade das cores, gestos e a aparente modorra dos costumes.  Em Cachoeiro do Itapemirim há vários assim e também muitos que já se foram, como Maria Fumaça e Taruíra. Entre os atuais há o imortal Neném Doido, homem capaz de fumar 15 cigarros ao mesmo tempo, enquanto comanda o trânsito da capital sec...

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Bandolim de Chumbo

29/12/2016 08:00:00

João Moraes

Há pouco tempo esteve em Vitória uma das figuras mais importantes para o chorinho brasileiro, não por ser um dos grandes virtuoses do gênero, mas por ter rompido com amarras tradicionais da forma de se tocar o choro. Joel Nascimento padece de uma otosclerose que o levou a uma -talvez- precoce quase surdez beethoveniana. Começou sua vida musical ao piano, que mais tarde abandonou em troca do bandolim, instrumento consagrou sua música e nome como o grande modernizador do chorinho brasileiro...

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